
Andei perdido por campos e vales, caminhei por prados, serpenteei por entre as árvores, procurei muros esquecidos ainda não demolidos, tirei os sapatos e caminhei descalço na areia molhada da praia deserta, ergui os olhos ao céu, estendi os braços para a terra, tudo para encontrar o espaço certo e apenas o vazio abracei. Foi então que decidi escrever o teu nome nas portas e janelas. Essas eu sei que as posso abrir. Queria também saber te desenhar. Não em telas com pincéis e tinta. Essas com o tempo precisam de restauro. Mas não vou conseguir, bem sei. Tentar quem sabe… Era só para poder mostrar os teus traços perfeitos, a luminosidade do teu sorriso, a tua boca cheia de beijo. Queria que as minhas mãos pudessem reproduzir os contornos e com um leve toque fazer sobressair a textura aveludada da tua pele. Há um não sei quê de etéreo no teu peito, um calor que parece ter uma conexidade directa ao meu. Pode ser ilusão, pode ser sonho, pode ser fuga, pode ser o que seja, mas pode. Uma ponte, uma passagem, um caminho entre o meu coração e teu.
Resolvi despir-me de todos os meus medos. Atirei para longe naquele dia ao fim de tarde, lembras?, entre lágrimas e abraços, num afoguear precipitado e covarde. Depois dali, as folhas caídas de finais de Outono, cúmplices de uma dor antecipada que talvez jamais possa vir a acontecer, deixaram-me antever o demasiado óbvio, aquele medo que é filho do amor imenso que corre entre desejos e sonhos meus. Rápido. Mas com a certeza do desfalecer. Apressado. Mas inegável.
O riso silvado das hienas corta o silêncio da noite na expectativa de um vacilar, mas ambos sabemos que elas vão sucumbir à certeza de que não podemos mais fugir, desta vez vamos agarrar todos os medos de tantos anos, os meus e os teus juntos. E tantos são. Tu sabes e eu sei que somos velhos demais para sermos tão estupidamente inocentes. E jovens demais para envelhecer tão depressa com todos os nossos medos.
São imensas as histórias que temos para descobrir, tantas são as causas para contar e em desfilada defender. Todas aquelas pequenas grandes coisas que povoam os nossos sentidos, as cores que nossos olhos admiram, poesias que nos fazem estremecer, de imagens e amigos, de amores e paixões, de sexo que fizemos e desejamos repetir, de épocas que vivemos e muitas outras que ansiamos viver, de todos os sonhos que restaram e tantos outros que se foram. Sabemos ambos que temos aquele abismo dos anos que se foram e a gravação das imagens que nunca tivemos oportunidade de vermos juntos. Mas a ponte que atravessa o rio que nos separa, apesar de imensa nos une. Os seus alicerces são de concreto testado, granito provado, ferro forjado na bigorna do inferno. Toda aquela mistura de materiais, de que não somos totalmente alheios, que serviram para solidificar tudo o que construímos nas nossas buscas diárias. Metal e algodão.
Todos os encontros que idealizamos em cada pormenor, cada gesto construído segundo a segundo, neste entretanto, no antes do nosso reencontro, foram apenas ensaios, tantos vezes infelizes e frustrados, para que finalmente os nossos braços se fechassem em redor dos nossos corpos. Nesse instante descobrimos o que já há muito sabíamos; nascemos para ser cor da mesma pintura, notas da mesma música, palavras do mesmo verso, águas do mesmo rio.
Aqui derramo os ciúmes dos dias em que não fui testemunha dos teus risos, não enxuguei as tuas lágrimas com beijos, não participei dos teus gozos e prazeres e não chorei as tuas frustrações, dos fios de cabelo que têm mais tempo contigo do que eu.
Hoje festejo o aniversário de quando os meus lábios casaram com os teus, num ritual silencioso, que redescobri o amor na sua plenitude, que fecho os olhos e vejo o teu rosto, que faço de ti protagonista de todos os meus sonhos e és a fonte de todos os meus desejos, todos os dias, em cada amanhecer.
Toda a beleza que vejo nos teus traços são reflexos das tuas formas e cores perfeitas. Que a perfeição seja apenas o amor que vês em mim. Igual ao que vejo em ti. Na mesma medida. Sem medida alguma. Envolto nas mesmas regras, sem regras nenhumas. E que caminhe tranquilo, meses e anos vindouros, sôfrego por não se bastar. O amor, recheado de paixão, nos faz querer sempre mais e nunca se bastará.
A minha fonte, porém, acaba aí: em ti. Onde está toda a vida, todo o extravasar, toda a beleza, todo o encaixe para o meu corpo e meus sentidos.
Aquém e além do que é óbvio ser dito, que jamais direi pois, como tantas outras, estas folhas de papel, vão cair amarrotadas no cesto dos papeis. Tenho de apressar-me, o carro do lixo passa às dez horas.