segunda-feira, junho 06, 2005

Olhos nos olhos

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O mundo rola aí fora, muito para além da confinação do espaço onde me encerro, aqui dentro, teu prisioneiro, prisioneiro do mundo. De uma forma pálida, tímida, temerosa até, tento, desespero no olhar, enxergar os feixes de luz que tentam trespassar as grades da minha gaiola, que o inimaginável criou, com enfeites que não identifico e eu, de mão estendida, dedos abertos, tento agarrar. Tenho pressa em apanhar, não vá no entretanto, os carcereiros cerrarem a porta principal. Um ai sumido se solta da minha garganta, pois os raios atravessam a minha mão, impotentemente aberta. Descubro naquele instante que não sou mais do que a sombra disforme projectada na parede de concreto. Descubro então que sou a sombra de ti e neste instante sinto que sufoco e, pior ainda, te sufoco com um amor doentio, ou doente, já não identifico, mas uma coisa eu sei, é um amor que me aprisiona no teu corpo, que acorrenta cada segundo dos meus instantes e solta as grilhetas durante a noite, quando povoas os meus sonhos e me livras dos meus pesadelos. Noites que eu grito que sejam de insónias.

Terei eu de te sacrificar em nome de um sentir que ultrapassa todas as fronteiras? Se assim for, pois que seja, matar-te-ei, olhos nos olhos, com a doçura que nos envolve e, assim, com a leveza de um esvoaçar, desprenderei as algemas que nos unem, as acordas que nos amarram todos os sentires e nos pressionam o coração. Quando de novo nos encontrarmos, a morte estará nos domínios do olvido, em completa letargia de memórias e então, pois que seja, assim será, viveremos em plenitude todos os sentidos da carne a reclamar os seus direitos, distâncias que desaparecem, e os corpos se fundirão num só. Exactamente como deve ser, com o rigor do que está escrito.

Com as pontas dos meus dedos, desenho cada curva do teu rosto, com a palma da minha mão percorro a curvatura dos teus seios, os meus olhos mergulhando nos teus, isso, olhos nos olhos. Sinto nas minhas costas o leve percurso dos teus dedos pelas cicatrizes, que o tempo ajudou a curar, mas jamais a esquecer. Uma estrela desenhada a fogo, apontando para cinco direcções diferentes, a mesma que um dia foi estigma e hoje é honra. Naquele momento sinto que as grades se esfumaram e que vagueio, errante, num qualquer campo de concentração e aqui o perdão se esvai. Recuso perdoar o silêncio que insiste em corroer, não as horas, mas cada segundo de uma estrada por percorrer. É uma mudez que corrói o espírito, que rouba o pouco que resta de fulgor.
Que venha o alternar das marés, as tuas palavras vazias cheias que se espraiam em meu corpo desmaiado na areia molhada. Perdi todo o entendimento, pois não consigo compreender como podes me oferecer o tudo e o nada ao mesmo tempo, a ternura da tua cabeça em repouso no meu peito em paradoxo com a tua distância. O brincar de uma indiferença, que os olhos nos olhos renegam e afastam. Os mesmos que se transformam em espadas afiadas, de dois gumes, quando declaro em silêncio todos os sentires, os mesmos que me transformam em prisioneiro de ti, de mim, prisioneiro do mundo, prisioneiro dos laços que jamais poderão ser desatados, prisioneiro do instinto e da emoção. Livre da razão, liberto da temperança, livre de um qualquer equilíbrio, ilimitado, feito escravo e senhor, justo ou injustamente de arrais de pouco saber. Nem te importas, tu que te salvas, tu que não podes me salvar, tu que me acorrentas na masmorra e me ofereces migalhas do universo fértil que desfrutas, tu que me torturas e me enriqueces com misérias de ti. Mas sempre, sempre olhos nos olhos.

7 comentários:

Mitsou disse...

Que bom tornar a ler-te. Sabes que guardo as tuas palavras sempre para o fim da minha ronda. Para poder lê-las devagar, saboreá-las, entendê-las (tão bem, tantas vezes!) e levá-las comigo na mansidão da paz que me trazem. Por tudo isso, um beijinho de amizade e gratidão, Alexandre.

lazuli disse...

Alexandre, faço minhas as palavras da Mitsou..É bom ler-te outra vez. Fazes falta, sabias? Então dedico a ti este "poema" que tenho para publicar..

Possívelmente
terei um dia uma verdade
que me acerte em cheio nos olhos
e que me cegue
certa fúria de viver.

Possívelmente,
se me acontecer, pararei,
amor,
de te viver.


Um beijo

Cris disse...

É hj noite de insónia e de algum receio... e nem sabes como me soube bem ler este texto...

Um beijinho grande, Alexandre

Dora disse...

Também eu gosto de ler os teus textos traçados a fogo e paixão. Este post é lindo ao abordar um amor absoluto, radical...
Uma boa noite para ti :-)

lazuli disse...

esqueci-me de dizer que a foto é..linda (não me ocorre outra palavra), e que voltar aqui e reler-te ao som da música, é..no mínimo, uma ocasião de tranquilidade e ao mesmo tempo de entusiasmo..que não são incompatíveis..
Um beijo**

Vera Cymbron disse...

Que lindo meu caro...Parabéns, amei!
Jinhos grandes

lazuli disse...

Tens que responder ao repto do meu blog (já vou atrasada?):***