
Pois então que venham todas as coisas e se derramem por todos os cantos e elas, as coisas, que fiquem enleadas de sal marinho e fogo com chamas até aos céus. E aí, por sua vez, que venha a lua, pois que venha e naquele céu ficam perdidas no estado de espírito as palavras ditas com presságio e sem ter podido recorrer ao cigarro que, em inconsciência de um vício vingador acendi.
Nos teus olhos todos os diálogos ditos em surdina, com abraços e sorrisos e um sabor doce na ponta da língua, derramado por cada palavra sussurrada. E tudo que não foi compartilhado, suor, lágrimas e vontades e até o desabrochar daquela flor, lembras?, aprendi naquele dia, naquele instante que durou a eternidade de um segundo a importância de olhar dentro dos teus olhos. As minhas mãos tremiam de vontade em esmagar entre meus braços, acariciar teus seios, percorrer teu corpo, tudo num só movimento, os impossíveis que a mente ordena. E foi o mesmo em outros diferentes.
Talvez algo esteja reservado para muito além de simples desejos, ou de uma camisola amarela escolhida num momento sem pensar e das transparências de um olhar a ultrapassar o horizonte, naquela praia deserta. E foi então que desceu sobre mim toda a raiva escondida numa gaveta entreaberta e tomei consciência de todo o aprendizado a escapar-se por entre as brumas do esquecimento. Vazio fiquei. De mim, de ti, de tudo e de todos. Pois que seja, mais cedo ou mais tarde acabo sempre por escutar o que não precisava de atingir, o lado mais sóbrio de mim
Não dá para perder mais tempo, é hora de assinar a poesia e clamar aos ventos e sussurrar ao teu ouvido, que não esqueci as memórias gravadas a fogo de todos e cada instante que nos deliciaram. Deixa em repouso, na areia banhada pelo fluir das ondas, todo o discurso enfeitado de frases descoloridas pelo tempo. Não sou mais criança e esqueci, isso sim, do tempo que fui.
Tenho as mãos escondidas, inventei de sorriso triste, para afastar todo o lixo do mundo, do vómito das caras lisas, das pedras que nos rolam estrada abaixo, aos tropeções. Gestos e pensares que não me podem prender e muito menos degradar, nem mesmo em força, pois dela precisaria demasiada. A fumaça sussurra, recheada de receios e medos e, talvez por isso, ninguém consegue ouvir, nem mesmo nesse negrume, impossível criar nome, com imaginação ou na consulta de alfarrábios, nem nos livros riscados e chorados, nem nos trigais que as nossas vontades semearam. E a vida, na vertiginosa lentidão, anda para a frente, umas vezes triste, outras cintilante e quantas vezes com a força da insanidade, fora do compasso.
As sementes, que as mãos em ritmo certo lançaram e os ventos espalharam, cresceram com o adubo das nossas vontades, aquelas que não se sustentam para além das palavras. Fica apenas o ténue desejo de arrancar uma lasca frágil de felicidade de um coração distante. E aqui me vergo apenas a uma só lei: Amor!