domingo, julho 24, 2005

O Beijo

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De um jeito que ela sabia ser só dela, sorriu pelo canto do olho. Foi um sorriso mais do interior, mais sentido do que expressivo. Um intimo sorriso, ou um sorriso intimo. Naquele instante não desejou parar na incógnita. Um sorriso que só nós mesmo sabemos que o estamos a expressar. Tudo porque ainda se sentia um tanto entontecida com aquele beijo. Sentia, mais do que ouvia, as pessoas ao seu redor a chamarem-na. Seria mesmo o seu nome que diziam? Mas ela não ouvia. Nos seus lábio, ligeiramente entreabertos, o gosto, a quentura, a música. O coração tinha já partido à desfilada. Imparável, incontrolável. Um pensamento fugidio, inexplicável, trespassou sua mente e pensou que se fosse um peixe, saberia como é ser pescado. Não se deteve um segundo com tal estranho pensamento e muito menos porque ele surgiu.

Primeiro foi aquela pontada fina, em seguida um ligeiro espasmo agudo, que não é de dor nem de prazer, ou então o prazer da dor. Quem vai sabê-lo? Talvez seja de desespero, aquele que é novo e não cabe. Aquele que sabemos só nosso, mas não encontramos o espaço certo para o colocar.

Não podia contar para ninguém, não que fosse segredo, mas tinha sido um beijo secreto, um beijo selado a lacre, um beijo longo, tempo para parar, como não houve tempo para começar. A sede dos lábios, há tanto tempo sequiosos, fora finalmente saciada. Passara a língua sorvendo cada gota da humidade que ficara em seus lábios dando-lhes uma tonalidade que nenhum batom conseguiria. Tanto fora o tempo para alimentar aquele desejo que crescera dentro de si tão silenciosamente.

Não era para ser, ela bem o sabia, mas acabou por ser o que já podia ter acontecido um dia. Um desejo que crescera com as palavras lidas que aos poucos foram palavras sentidas. Dentro de si ela sabia que seria um dia. Não sabia que seria aquele. E nem era dia. Era noite. Fazia frio naquela noite de Outono, mas ela não o sentia.

Um mar de pessoas ondulavam ao seu redor e ela não as via, nem sequer as sentia por perto, nem os sussurros, nem os olhares, nem as respirações. Só via o desespero crescer em cada instante que mais se aproximava a compreensão, seguida da certeza que jamais conseguiria resistir à tentação. Era um apelo, dos olhos que a fitavam, de dentro de si, das tremuras que lhe percorriam o corpo. Cada palavra silenciosa da sua boca suplicava o encontro, a proximidade, o aconchego de corpos tremendo e então pedia, mais, implorava o toque.

Fechou os olhos e olhou para dentro de si. Procurou na savana dos seus sentimentos o espaço certo para a corrida, depois o bote. Era a fera em si que despontava e tanto ela desejava que fosse. Queria anular as pessoas que rodopiavam à sua volta, eliminar o pavor, dos olhares, das críticas, dela mesmo. Sabia que era um absurdo beijar aqueles lábios. Tantos outros em oferta e logo aquele. Mas ela não escolheu, foi o desejo que cresceu dentro de si, tomou forma e um milhão de interrogações se apossaram dos seus sentidos. O que iriam dizer? Que iria ele pensar, o que as pessoas iriam comentar? E ele? Como iria reagir ele depois? E em seguida como seria? E outros beijos? Haveriam? Contratos, promessas, mentiras, lágrimas? Perguntas que a fustigaram antes do beijo e se dissiparam no preciso instante em que, com a língua, sorveu os resquícios da humidade que ficou em seus lábios. E deixou de pensar.
Depois do beijo, nada além do tumultuar estranho no coração, como se fosse uma montanha russa. E, toda vez que fechava os olhos, lembrava de cada sentir, de cada movimento, da cada movimento dos dedos. Não podia ser verdade, um dia talvez até esqueceriam. Mas no seu íntimo, ela sabia que não. Aquele beijo jamais esqueceria. Tinha a certeza que se transformaria numa lembrança, daquelas que são para toda a eternidade, que ultrapassam os próprios limites da vida.
No coração que chora.
Na saudade que passa.
No dia que volteia o seu bailado.
Na vida que resiste ao desejo de ficar mas parte.
Podia ser humana, encolher os ombros e seguir em frente, esquecer o beijo, não desejar mais nada.
Podia ser a fera, ir além do beijo, deitar em seu corpo, gozar, e no dia seguinte ser mulher de novo.
O que a faria mais feliz?
Nenhum dos dois, nem ela, sabe. Mas não se importa.
Apenas. Deleitando-se com o gosto do que se deu pelo ímpeto.
E foi bom.
Nem a mulher, nem a fera se arrependeram de ter cedido a um beijo que o sonho povoou em muitas noites de insónia.

8 comentários:

Lina disse...

Gosto de te ler e reler!
Beijo

Leonoretta disse...

ola alexandre
agradeço a tua visita ao meu blog e o bonito comentario que la deixaste.
claro que nao precisas de ser convidado para me visitares.
abraço da leonor

lazuli disse...

ler-te é sempre um prazer renovado.Porque escreves muito bem, e com uma criatividade invulgar que nem me atrevo a comentar. Um beijo.Fernanda G.

Vera Cymbron disse...

Para quando o livro " Cartas perdidas"?! Adorava tê-lo na mesinha de cabeceira...
Jinhos

Cris disse...

Eis um texto pleno de emoções... creio q qualquer pessoa ao lê-lo se encontrará numa qqer parte do mesmo.
É esta versatilidade q me seduz na leitura de tudo qt escreves...

Um beijo grande

TMara disse...

deixo só um bj e um molhinho de sorrisos :)

Jamour disse...

Vim de convidar para me ajudares a soprar as velas. O meu blog faz anos, há champanhe e bolos. Abraço

Malae disse...

Este beijo fica para a história... tal como tudo o que escreves :) Resto de boa semana. E muitos beijinhos só para ti. Malae***********