quinta-feira, julho 21, 2005

Venham a mim as flores

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O que há de mais lindo no mundo são as flores e eu gosto muito de flores. Têm cores muito bonitos e são perfumadas. Disseram-me que elas cheiram bem, mas eu já não me lembro como é. Eu sei que na minha terra havia muitos jardins com muitas flores. E nas casas. Na minha casa parece que também havia.

Tenho andado pelos campos a ver se encontro alguma flor, mas ainda não consegui encontrar nenhuma. E eu que gostava tanto de voltar a ver uma flor, de a ter na mão e de cheirar o seu perfume.

As pessoas dizem que a minha terra é feia porque não tem flores. Eu também acho que é feia e uma vez perguntei porque não havia flores na nossa terra. Desapareceram todas, foi o que me disseram. E não voltam? Talvez voltem, mas vai demorar muito tempo. Eu não sei quanto tempo é muito tempo, mas acho que não é amanhã. E eu gostava Ter já amanhã flores na minha terra.

Disseram-me que ainda há um outro tipo de flores na nossa terra. Poucas, mas há. Onde, que as quero ver? Os teus amigos, os teus companheiros, tu mesmo. Tão poucas, então...!Mas não pode ser! Eu não sou nenhuma flor! E já não tenho amigos nem companheiros. És sim. Tu e os outros como tu, são as únicas flores que nos restam, embora não saibamos por quanto tempo ainda.

Não gosto destas flores e não gosto de ser flor. Eu quero ver uma flor de verdade. Daquelas que deitam cheiro e têm cores bonitas. Dessas é que eu quero!

As pessoas crescidas dizem que as poucas flores que existem na nossa terra são as crianças. Eu não gosto. Acho que são feias, escuras e queimadas. Não têm pétalas, não têm cor, nem mesmo vida. Iguais a mim.

Se somos flores, somos flores perdidas, estropiadas, varridas pelo vento da destruição e da morte, rastejando na poeira do caminho em busca da mãe, do pai, do irmão, da flor que não nasce mais. Procurando um bocado de erva fresca, a sombra de uma árvore, um naco de pão, uma gota de água.

Sinto tudo dentro de mim como se estivesse a arder. Um fogo de labaredas altas. E eu não gosto do fogo. Queima. Mata. E faz lembrar.

Alguém disse-me, para fazer parar as minhas lágrimas, que talvez um dia as flores viessem do céu. Eu gritei e disse que do céu não queria que viesse nada. Da terra. Da terra é que eu quero que venha. Que venha tudo. Do céu não. Não gosto do céu. O céu é mau e traiçoeiro. Não quero nada do céu. O céu é mau e as coisas más não dão flores. Um dia... do céu... não quero...!

Primeiro foram as flores, depois o cansaço e deixei-me cair na estrada. Vieram uns homens e levaram-me para uma casa com muitas camas. É onde estou. Depois veio um senhor de bata branca e perguntou-me o nome e quantos anos tinha. Devagar, fiz sinal com a cabeça a dizer que não sabia. Não me lembro do meu nome nem de quantos anos tenho. Não tenhas medo, pequeno, vamos tratar de ti, disse ele, com uma cara muito triste.

Na cama ao lado estava um menino mais pequeno do que eu. Devia ter três ou quatro anos. Tinha os olhos fechados, não se mexia e quase não respirava. Foi o primeiro que eu vi morrer ali. Depois dele foram muitos mais. Eu não tinha medo. Lá fora vi muitos a morrer, tantos que eu não sou capaz de contar, mesmo que estivesse muitos dias.

Eu sei que vou morrer. Ás vezes vem o senhor da bata branca junto da minha cama e eu ouço ele dizer para os outros que ainda estou vivo.

Não tenho medo de morrer. Tenho é pena de não voltar a ver uma flor, de sentir o seu perfume. Disseram-me que elas talvez voltem a nascer, mas eu não vou conseguir vê-las, nem sequer vou tê-las em cima da minha campa. Já não tenho tempo para ver nascer uma flor nesta minha terra que se chama Hiroxima!

5 comentários:

Jamour disse...

O encanto das flores e a certeza da morte. Somos um ciclo e este texto por si só ja é uma flor, sem nome mas com encanto. Um grande abraço SrºAlexandre.

Vera Cymbron disse...

Hoje apetece-me a flor da mentira, não sei porquê...ha coisas que me ultrapassam e nem mesmo os poemas e as prosas conseguem exorcizar. Desculpa o desabafo. Gostei muito deste teu texto.
Jinhos e bom fim de semana.

Malae disse...

Confesso que me comovi! Que o fim do teu texto me surpreendeu! Que o acheio perfeito e lindo! Que nunca vi alguém de falar de flores assim... podia dizer tantas coisas mas nenhuma faria realmente justiça ao que escreveste!

Flores... este teu texto é im hino à sua beleza!

Bom fim de semana. Beijinhos grandes e amigos. Malae****************

lazuli disse...

qualquer coisa que escreva, não bastará.

Em busca de mim mesma!!! disse...

Vc escreve muito bem... Adorei o seu cantinho!!!

Bjs

Janaína