sábado, setembro 10, 2005

A VERDADE DA VIDA

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Os andrajos que, de uma forma tão evidentemente precária, cobria o corpo estigmatizado pelos anos e pelos atropelos da vida, os sulcos que marcavam o rosto sofrido, os cabelos desgrenhados de cor indefinida, cada movimento das mãos enrugadas, eram prenúncios de morte da imagem construída num tempo esquecido, dúvida em crescendo se alguma vez esse dia tenha existido,

Fedia por cada poro da pele, lixo de poeiras e chuvas, carne seca esquecida e uma mistura de óleo e suor. Fétida, pobre e possuída de uma infelicidade que os olhos mortiços gritavam aos ventos. A sua pele, que os rasgões nos andrajos, que artista algum jamais teria coragem de chamar de roupas, mostravam, era povoada pelos bichos que a faziam coçar-se a cada movimento, feridas que se abriam no desespero de cada gesto, sangue e pus se misturavam em cores violáceas.

A sua alma era um caudal de um rio pelo desaguar de saudades perdidas, memórias imensas e mágoas profundas. Na sua boca o gosto amargo de um azedume mortal. Em cada esgar do seu rosto, a que ela, teimosamente, continuava a chamar de sorriso, recordava um passado de glória e dor. Foram muitos os corações que destruíra com um simples gesto, a ausência de um sorriso e com palavras vis que o desprezo ditava. Era cruel, sempre o fora e tinha prazer nisso. Se alguma vez tal experiência tivesse sentido, podia jurar que sentia um prazer quase orgásmico, mas tal não dizia, por ignorância, de que muito se vangloriava. Tinha um poder não conquistado, imerecido talvez e com ele destruíra pessoas e sentimentos. Matar um homem com um gesto, abrir chagas com a simples ausência de um sorriso.

Quando mira a sua imagem reflectida nalgum pedaço de espelho, que os caprichos do destino fizera chegar às suas mãos, em nenhum dos traços consegue descobrir, por muito que seja o esforço de memória, indícios, por mais leves que fossem, dos tempos áureos de outrora, em que cada instante era ocupado para brincar de seduzir. Simples forma de passar o tempo, preencher vazios e caprichos. E os risos que cortavam a noite.

Destruiu lares, casamentos, famílias, por vaidade, por capricho ou apenas para sentir o doce amargo de um poder que a natureza, por vezes madrasta, lhe oferecera. Em boa verdade, ela nunca amara ninguém. Se tal acontecesse teria de reconhecer uma faculdade de sentir. Jamais se permitiria viver paixões que lhe tomassem as rédeas do seu próprio destino. Naquele tempo pensava, convencida, certa, que era a sua vontade que traçava as linhas mestras do seu destino. Nada, nem ninguém tinha forças para provocar desvios, causar incertezas, levantar dúvidas. Convicta, clamava que tinha vindo ao mundo para matar, jamais para ser morta. Fugazes foram os momentos em que estas imagens desfilavam frente aos seus olhos, quando olhava para o pedaço do espelho.

Semicerrou os olhos numa desesperada tentativa de negar a evidência. Perante si própria tinha uma mulher envelhecida, respirando amargura e desnuda de roupas e sentimentos. Os peitos caídos de peles enrugadas, as pernas cobertas de varizes e chagas mal curadas, os poucos amarelecidos pelo fumo e pelo vícios. Tão longe os vestidos de sede e assinatura, os salões resplandecentes, os sorrisos servis, as homenagens a uma beleza que ela julgava eterna.

Depois de tanto abandonar, perdeu a conta, esqueceu no tempo, por vezes no dia seguinte, eis que a verdade da vida caiu em seus braços, apertou-a num amplexo de dor e esquecimento e foi, por sua vez, abandonada em igual número e intensidade. E desistiu, abandonando-se, à sua própria fragilidade. Abandonou crenças, valores, ideais e, pior que tudo, o respeito por si mesma. Passou a ser cruel consigo própria, como se um destino caprichoso a obrigasse a beber do seu próprio veneno. Sentiu pela primeira vez o peso da infelicidade. Infeliz, a palavra que renegava, sentimento que queria longe de si. Isso era para os outros, não para si. Recusava com raiva chorar todas as lágrimas que todos os dias cresciam e se multiplicavam dentro de si, só para não oferecer a ninguém o prazer de ver uma só lágrima sua. Entupia as emoções, estrangulava sentimentos. Nada reconhecia, tudo negava.

Afinal o que escondia aqueles andrajos, de rasgões e sujidade? Que procurava disfarçar o emaranhado de cabelos sujos e despenteados? Que verdade da vida ela escondia?

Mulher que perdera no tempo a idade que tinha, o ano em que nascera, qual o lugar onde aprendera as primeiras letras, que jardins a viram correr, por que caminhos os seus passos percorreram. Tudo ficara num tempo há muito perdido. Só uma coisa recordava, só um pormenor guardara, fizera só seu em silêncio profundo. Numa tarde em que o copo de leite e o pão com manteiga do lanche ficara abandonado em cima da mesa da cozinha.

No seu quarto, de rendas e bonecas, na sua frágil caminha de menina de cinco anos, o seu pequeno corpo se abria forçado, a dor abafada pelo resfolegar de uma respiração viciosa, as lágrimas que teimavam em não se soltarem e minutos depois, que duraram uma eternidade, o silêncio desceu. E foi ele, o silêncio, que piedosamente cobriu a nudez desvirginada da menina de cinco anos que deixara de o ser.

Ai, pobres andrajos que pouco tapavam e nada disfarçavam. E o que bela fedia não conseguia fazer esquecer as dores sentidas, os segredos escondidos, as lágrimas contidas, as vergonhas sufocadas, os silêncios esmagados. Sem o saber, ela tornou-se a lama tratada do corpo de um homem tosco, vicioso.

E calou, esmagando no silêncio vontades e sonhos. Anos a fio ninguém soube de onde vinha tamanha amargura, qual a causa daquela infinita tristeza, que raio é que a garota tem?, perguntava sem nada entender, ou talvez sim, aquela que lhe dera a vida e que ao lado dele dormia. E assim ficou uma das partes da equação. Ela era a soma de todos os medos, das feridas por cicatrizar.

Anos depois conheceu o seu primeiro homem. Sorriu, passou a mão pelo seu rosto, encontrou os lábios aos seus e aguardou. Sem pressas e com ternura que ela, intimamente, agradeceu. Deixou escapar um suspiro de esperança, abriu-lhe os braços, entregou-lhe o coração e foi dele numa entrega de raiva e amor. Pouco mais de um ano depois, foi assassinado numa rixa de bar. Sem motivo, sem explicação, sem consequências. Pensou em desistir, mas uma força que não conseguiu compreender, disse-lhe para ficar e ela ficou. Não acabaria com a sua vida. Achou que seria cruel acabar com a sua própria vida. Daria ao mundo o espaço para mais alguém. Um alguém que podia ser violentado, como ela o fora, vil como ela se tornara. Para quê mais um da sua laia neste mundo de merda, dor e lágrimas. E assim viveu até ao último minuto, seca, infeliz e condenada.

Emprenhou duas vezes. Nas duas ela mesmo arrancou do ventre a vida que gerava. A primeira pediu ajuda, na segunda ela própria o fez.

Naquele que seria o seu último dia, caminhava pela calçada deserta falando consigo mesma, balbuciando palavras desconexas. Ninguém lhe prestava a menor atenção. Os poucos que passavam disfarçavam, olhando para o lado ou então mudavam de passeio. Uma vez por outra, lançavam sobre ela olhares de piedade que respondia com ódio e desprezo. Odiava os homens, a sua falsa compaixão. Uns quantos, nunca sabia quem eram nem o que pretendiam, falavam-lhe de Deus, de bondade, de ternura, palavras vãs, desconhecidas, falas de sentido. Na sua mente distorcida imaginava um Cristo violentado aos cinco anos e que transferiu este fardo a todos os outros, a ela, ao mundo inteiro. Repugnava-lhe a ideia de ter sido dela a responsabilidade de transportar para toda a humanidade o peso que carregava em seus ombros, a dor que transportava no coração e o ódio que trespassava em cada olhar.

Cansada por todo aquele caminhar incerto, sentou-se na berma da estrada, deixando que um suspiro resignado escapasse da garganta. Fechou os olhos e, no ecran gigante do outro lado da estrada, reviu inteira toda a sua vida e, num desespero mortal derramou a sua primeira lágrima do tamanho do oceano. Ao longe, os sinos da torre de uma igreja algures tocaram, anunciando a hora de uma qualquer oração. Sorriu. Os sinos tocavam a rebate na sua morte anunciada. Porquê, só agora, interrogou-se. Levantou os olhos e olhou os céus. À sua volta, voavam gaivotas. Por segundos achou estranho gaivotas voando naquele local, tão longe do mar. Voltou a fechar os olhos, esqueceu o estranho esvoaçar das gaivotas e ouviu o último toque dos sinos perdendo-se no ar. Ainda teve tempo e consciência de sentir o corpo tremer e uma dor fina trespassar-lhe o coração. O corpo tombou empobrecida, feia, seca.

Foi enterrada em vala comum. Parentes, se os tinha, estavam há muito perdidos no esquecimento. Fedia demais para que alguém tivesse piedade da sua alma, ela que, afinal, merecia toda a piedade do mundo.

Um dos coveiros, num gesto inconsciente, com dois pedaços de madeira já carcomida pelo tempo, improvisou uma cruz e atirou para cima do corpo da mulher. Apesar de muitos anos de vida, era naquele sítio onde mais abominava enterrar pessoas. Nunca tinham nome. Para aquela, sem conseguir explicar porquê, resolveu inventar um, ao mesmo tempo que proferia um espécie de oração fúnebre.

Aqui jaz Leonor, sem sobrenome e ninguém para chorar a sua morte” E atirou a primeira pá de cal. “Não deixa saudades, paixões, dinheiro ou bens” A segunda pá de cal tapou-lhe a cara. “Não tem roupas, móveis, casas nem sonhos”. Do monte de terra ao lado, encheu a pá e arremessou para a vala. “Morta desde o cinco anos de idade. Aqui, a partir de agora, renascida virgem”. E um monte de terra cobriu por completo o corpo. “Que Deus tenha piedade da sua alma. Os homens nunca tiveram”.

E nada mais ficou do que um monte de terra. O homem limpou o suor com as costas da mão, endireitou o boné e virou as costas à vala comum. Chegara ao fim de mais um dia de trabalho.

12 comentários:

Mitsou disse...

Superaste-te, Alexandre. Conhecemos-te os textos fortes mas este...
Beijinho grande e boa semana.

Raquel V. disse...

Apeteceu-me chorar... na verdade todos somos como o coveiro. Todos enterramos os outros sem lhe sabermos os passados, sem lhes vivermos as vidas, sem perdoarmos ou deixarmos de o fazer.
E depois seguimos em frente. Porque cada um estará sempre profundamente só desde que nasce.

Mily disse...

Ao término dessa leitura instalou-se em mim uma tristeza tão grande! Um conto que desde o início nos convida a penetrar na miséria humana... denso, forte, sofrido, nos arrastando por caminhos que muitas vezes nos recusamos a percorrer por sabê-los tão degradantes ao olhar, esquinas que hesitamos dobrar porque logo ali estarão cenas que vivemos a evitar por serem penosas demais de admitir. Evitamos tomar conhecimento da dor alheia por não suportarmos carregar as nossas que egoisticamente julgamos sempre maiores que a do outro. Teu conto nos prende pela mão e incita nosso caminhar por becos que sabemos escuros. Sem saber como evitar, o fio de tuas palavras vai nos conduzindo impiedosamente, até que no derradeiro instante nos fazes defrontar com um dos piores sentimentos abrigados no coração dos humanos... a indiferença. Fico a imaginar como fazes para fugir dos sentimentos e emoções desgastantes que devem se apoderar de tua alma após o processo de criação. Desejo-te uma semana de paz e luz, e fico no aguardo de novas e intrigantes postagens.

Adryka disse...

Sempre tens um efeito sobre mim umas vezes sonhador outras ternurento, desta vez é um pouco de desolação.
>Beijos Alexandre.

Malae disse...

Mas que saudades de te ler! Estas tuas prosas que são a perfeição! A tua escrita enebriante, que contagia!

Extraodinário texto este, a que ninguem fica indiferente. A verdade é que as pessoas passam pela nossa vida e pouco sabemos dela. Cruzamo-nos apenas... o contacto não importa! E assim fazemos o papel do coveiro.

Beijinhos grandes.
Malae*********

Maria do Ceu disse...

Um texto bem trabalhado e o seu conteúdo e tocante no despertar de não se poder ficar indiferente. Comprimentos.

lazuli disse...

Já tinha saudades de te ler

Jamour disse...

Srº Alexandre até suspirei quando terminei este texto. Um grande e sublime aplauso a este maravilhoso texto. Grande abraço

Cris disse...

Um texto forte, talvez até difícil de ler pelo seu teor realista, mas extraordináriamente bem escrito!

Ler-te é uma delícia, seja qual for o registo em q o fazes!

um beijo grande

Betty Branco Martins disse...

Olá Alexandre

De uma imagem
lançada
para além dos objectos
que faz
adivinhar um rosto
de anfiteatro
de mistérios
não se sabe
ao certo
a distância
que nos separa
dum corpo
habitado por ruídos
vagamente translúcidos
será
apenas um olhar
de janela
ou campo
enegrecido
uma fronteira
atravessando
a largueza
dos seus ramos
acenando aos céus
sentindo o calor da terra
que espera...

Um beijo

Anónimo disse...

Humildemente digo apenas, belo e aterrador! Bj da Fernanda

Cris disse...

onde andas?...