sábado, dezembro 03, 2005

Fim de semana inesquecivel (2)

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- Aprecia arte gótica? – Perguntei, apontando para o livro.

- Isto? Não. Tem é umas fotografias espectaculares. Foi apenas um pretexto para me sentar um pouco. São estes sapatos novos que me dão cabo dos pés. – Disse, com um sorriso de parar o trânsito.

Naquele momento o Paul Auster foi dar uma curva, mais o seu Inventar a Solidão, com a secreta promessa de, mais tarde, comprar o livro. O que acabei por fazer. É que eu jamais fico indiferente a uma mulher dorida.

- Conheço um creme, produto natural, que resolve isso em segundos.

- Palavra? Que nome tem esse creme?

- Sou péssimo para decorar nomes de cremes, mas sei que é um frasco com um rótulo verde e azul com plantas. Logo que o veja o identifico. Se o desejar, podemos ir à loja dos produtos naturais e lhe indicarei qual. – Custa alguma coisa ser simpático? Acho que não.

- Faz isso por mim? – Que raio de pergunta. Fazia isso e muito mais. Tudo o que ela pedisse, desejasse ou sonhasse.

Levantamo-nos e dirigimo-nos para a saída. Pensei que não tinha comprado o livro que pretendia, naquele momento. Esperava que o creme compensasse a perda.

Achei por bem fazer as apresentações. Disse-lhe o meu nome e ela o dela. Chiça, acho que agora tinha mesmo a obrigação de me lembrar!

Descemos pelas escadas rolantes e pouco depois entramos na loja de produtos naturais. Dirigi-me de imediato ao local dos cremes e encontrei o que procurava. Sei o nome mas não o vou dizer. É que nem sempre resulta e eu não quero responsabilidades.

- Aqui tem. Mas olhe que a aplicação deve ser acompanhada por uma boa massagem. – Observei, sem segundas intenções, claro.

- Aposto que a sabe aplicar. – Disse, sorrindo com alguma malícia.

- Em boa verdade, considero-me um perito. – Ora, uma mentirinha sem importância. Haverá alguém que não saiba dar uma massagem nos pés? Duvido.

- E agora? Tenho o creme, mas continuo com as dores nos pés. – Olhou para o frasco e depois para mim.

Alguém me pode explicar, como é que uma pessoa se deve comportar numa circunstância destas? Eu não conheço a brasa de lado nenhum, não tenho exactamente uma figura em que as mulheres caiem babadas aos meus pés só de me verem, de Adónis não tenho nada. A maioria das vezes fico invisível no meio da multidão. Aspecto de rico também não. O facto de lhe ter oferecido o creme, nem chegou a dez euros, não prova nada. Que eu saiba a Fnac não é um habitual local de engate. O que é que um pobre diabo como eu podia dizer numa situação daquelas. Acho que só uma coisa: na minha ou na tua. Lembrei-me que a mulher a dias não ía ao meu apartamento há mais de quinze dias, um filho doente, acho. Não é difícil de adivinhar o estado em que se encontrava. Se bem me recordo, não havia lugar nenhum onde não houvesse uma peça de roupa minha. Não, o meu apartamento, não era, de facto, o melhor local. Por outro lado, um conhecimento de poucos minutos, não oferecia suficiente confiança para convidar um desconhecido para sua casa. Depois, eu não sou assim tão sortudo que vá para a cama com uma mulher com tudo em cima, sem indícios de silicone – mais tarde verifiquei a veracidade desta afirmação – nem nada para por defeitos, minutos depois de a conhecer. A coisa comigo funciona com muito mais dificuldade e trabalho e nem sempre é coroada de êxito. Não que isso me chateie de sobremaneira, na verdade prefiro que o meu lado romântico prevaleça. Um jantar à luz de velas, um passeio ao entardecer, horas escorreitas a conversar sobre a importância das futilidades, um beijo fugidio, uma tímida carícia. Enfim, coisas do meu intimo.

- Se lhe dói assim tanto, posso dar-lhe uma sugestão. – Disse, com toda a seriedade estampada em meu rosto.

- Diga. Sou toda ouvidos. – E ficou na expectativa.

- Aplicar-lhe o creme aqui nos corredores, não seria o melhor espectáculo. Se concordar podemos ir ao parque de estacionamento, senta-se no meu carro e eu faço o tratamento. O que acha? – Ao ver o meu carro, ía logo descobrir que era um teso.

- Aceito. Mas pode ser no meu carro. Eu tenho mesmo de ir embora.

Nada mais me restava senão aceitar. Segui-a até ao estacionamento. Num dado momento, ela colocou-se dois passos à minha frente à minha frente. Saia branca, justa, pois claro. Nada de fio dental. Ergui os olhos aos deuses, profundamente agradecido. Não gosto de fio dental. Prefiro a descoberta ao descoberto. E depois aquilo não dá trabalho nenhum, não oferece resistência, não deixa adivinhar nada, não permite o desvio. O deslocar. Brancas, num V perfeito, indiscutível, marca bem visível. Não tenho nenhum fetiche com cuecas, mas sou de opinião que é a cor que melhor se molda ao corpo de uma mulher. Acho o preto horroroso e o vermelho de muito mau gosto. Bem, também não sou contra a uma leve transparência. Aquelas tinham. Perfeitas, ondulantes, oferecidas. Antes que me desse alguma, apressei o passo e coloquei-me a seu lado. Dois ou três centímetros mais baixa. Mas será que aquela mulher não tinha defeitos? Começava a duvidar.

Bom, os dedos já começam a ficar um pouco doridos pelo rodopiar da caneta. É que, além de continuar a não me recordar do nome dela, não sei como hei-de contar esta cena da massagem dos pés, no carro. Mas já que cheguei até aqui… (Continua)

3 comentários:

Afrodite disse...

Lê-se de um fôlego, como se de água fresca numa boca sedenta se tratasse.

Mais um texto com a tua marca, única, mas desta vez mesclado de um toque de humor irresistível.

§(~_~)§ beijo da Afrodite

lazuli disse...

história entusiasmante, Alexandre, sigo-a atentamente..
Sempre me encanta a tua escrita.

Su disse...

cheguei hoje aqui ...e gostei do que li
voltarei
jocas maradas