segunda-feira, janeiro 23, 2006

Diário de um alma errante (IV)

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Noite 14.695


Foi ontem, depois de despir os trapos do dia e enfiar o conforto de umas calças e uma camisola, largas que se fartam, mas que me dão uma sensação de liberdade e conforto, da qual me recuso a dispensar. A roupa ideal para aquele abandono do fim do dia, quando temos a certeza que não vamos ter nenhuma visita e nos deixamos afagar pela quietude do silêncio da casa.

Tinha mais preguiça do que fome, pelo que arranjei, de um jeito indolente, uma sandes de queijo, uma maçã e um copo de sumo. Decidi que esse seria o meu jantar. Num exercício de equilíbrio levei tudo nas mãos, deixei-me cair no sofá, com um suspiro de cansaço e coloquei na mesinha em frente. A mesma cuja principal utilidade é permitir-me estender as pernas e apoiar os pés. Ainda não consegui outro uso que não esse.

Foi no momento em que endireitava o corpo que reparei num pequeno rectângulo colorido no chão. Tratava-se de um pequeno calendário de bolso. Deve ter caído da carteira, pensei. Para quem, como eu, que nunca sabe a quantas anda, um calendário é um bem precioso. Apanhei-o do chão e virei-o de um lado para o outro. Reparei no ano. Um calendário de há cinco anos. Um círculo feito com uma caneta azul, marcava um dia do quinto mês. Ia levar o copo de sumo aos lábios, mas fiquei a meio do movimento. Fechei os olhos, mas as imagens, nítidas, insistentes, em três dimensões continuaram volteando à minha frente. Foi nesse dia que nos conhecemos, naquela pequena loja de animais. Compravas comida para o teu cão e eu, umas guloseimas para o meu gato. Sorrimos e falamos de animais. E assim aconteceu e eu marquei o dia com um círculo a azul.

Alguns dias depois voltamos a nos encontrar no mesmo local. Dessa vez trocamos as nossas compras, eu comprava alimento e tu, guloseimas. Sem saber muito bem porquê, os nossos sorrisos foram um pouco diferentes. Nem mesmo sei de quem partiu o convite para um café, não que isso tenha grande importância.

Não entendo muito bem porquê, mas no princípio é sempre o verbo. O verbo e aquela excitação do primeiro contacto, daquele roçar leve dos lábios, uma fugidia carícia, aquele pele com pele. E esse momento nada mais é do que a simples conjugação do verbo. Sinto que é um verbo difícil de se conceber, de sentir o germe de um todo e mais difícil ainda de se expelir e eu sei, oh, como sei!, o quanto é importante despachá-lo para conquistar o equivalente a um fio de cabelo que seja, de liberdade.

Cinco anos. Cinco anos de prazeres exultantes, de mentiras concebidas no desejo, de ausências, de presenças fugazes, de silêncio prolongados, de gritos perdidos no deserto, ilusões de uma realidade por parir.

Atirei com o pequeno rectângulo para cima da mesinha e conclui que tinha perdido o apetite, mas decidi dominar a vontade no que seria mais uma cedência e, com esforço continuei a comer. As recordações alimentam a alma mas não o corpo, pensei com algum sarcasmo e dei-me conta que sorria.

1 comentário:

Vera Cymbron disse...

A tua alma não é errante. Adoro essa tua conversa contigo próprio como se tratasse de uma introspecção ao que passou. Acho que todas as "almas errantes" acabam por fazer essa viagem...
Jinhos