domingo, janeiro 29, 2006

Diário de um alma errante (V)

Noite 14.715


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Há noites em que, com o meu eterno caderno de capas pretas aberto, esferográfica entre os dentes, olhando o vazio que me envolve, tento ordenar os sempre desordenados pensamentos, procurando, muitas vezes em desespero, uma lucidez transformada em palavras legíveis e compreensíveis, não apenas para mim própria, mas para quem, um dia, estes cadernos caiam nas mãos. Confesso a minha incapacidade, pois são mais as vezes em que abandono o caderno, sem que uma linha seja escrita.

Esta noite decidi não pensar e permitir que os dedos sigam o seu curso, no desenho das palavras que o desconexo ditar. E depois esta chuva a fustigar as vidraças e o frio que nenhum aquecimento consegue vencer.

Qual o momento em que somos concebidos, num acto de amor, raiva ou acaso, determina o caminho que vamos percorrer? Somos o feto e, enquanto tal, pertencemos a um todo, respiramos angústias, sentimos alegrias e sorrimos quando recebemos transmissões de prazer, até ao momento em que, como um corpo estranho, somos expulsos do casulo de protecção e dois nomes são retirados do dicionário: mãe e filha. Mas a que foi chamada de mãe, não vai se libertar de imediato, pois é preciso calar a boca do pequeno ser que, sôfrego, agarra o seio que lhe é oferecido, ainda com um sorriso tímido e receoso. Os seus braços tentam aconchegar o mais possível ao seu corpo, para que o interior não faça tanta falta aqui fora. Pelo menos não tão já.

Apesar de verão, o frio é forte, dominador, é preciso fogo para salvar o pequeno ser, fogo da carne, quentura do peito da mãe, chamas de um amor que vai crescendo, tomando consciência da sua própria existência. Um saber que nenhuma faculdade do mundo consegue ensinar. Ela sempre sabe o que a gente precisa ou deseja e, naquele instante aceitamos o que vier. Se doce for, os traumas serão menores. Se amargo, vai ficar a marca e fica difícil digerir depois.

Podemos sorrir, até mesmo rir, mas as agressões que sofremos durante toda a vida, até mesmo quando bebé, fica escrito em sangue na nossa testa. Aquele momento em que levamos uma palmada em público, por algo que a nossa idade ordenou, muito longe de um extermínio de um povo. Naquele dia em que estava muito frio e ninguém nos estendeu um cobertor. Quando suplicamos por aquela boneca de trapos, vendida na feira por tuta-e-meia, recebendo em troca uma palavra amarga.

Nunca fui uma criança fácil, reconheço. Acho que ainda sou. Sei as causas dos males, ainda guardo a imagem de cada buraco em mim, cada tiro desferido, mesmo aqueles que falharam o alvo. Sei quem sou, apesar de não saber para onde vou. Sei quem é quem e também sei que pouco posso fazer para apagar esse passado. Sair por aí fora com uma metralhadora e apontar para a cabeça de todo o mundo, eliminando inocentes e culpados, eu sei, em consciência ser impossível. Não que, por vezes, a vontade não cresça. Quem sabe se não seria uma forma de acabar com as guerras, todas essas que por aí abundam. Fazer de mim a causa. Absorver todo o pó que o vento levanta em todas as estradas de terra, não ía adiantar muito. Cuspir na cara dos meus anos não vai me salvar e, por enquanto, não sou capaz de colocar fim em mim mesma. Sorrio, enquanto escrevo, pelo ridículo de todo este pensamento.

Pelo caminho ficou um casamento, um emprego que se perdeu e uma esperança que não renasceu. Por agora tenho este caderno de capas pretas e, de quando em vez a companhia um tanto fugidia de um pouco de calor, a quentura de um corpo apressado, uns momentos de prazer e noites, muitas, de solidão.

Hoje eu não queria. Juro que hoje eu não queria. Não queria pensar nele, nos seus olhos que brilham quando sorri ou quando escurecem com o que ele, teimosamente chama de lágrimas, por saber que não deseja fazer a troca. Por aquela mentira, que ambos tão bem sabemos, um dia eu faço. Não vai fazer. Eu sei. Ele sabe. Aqui eu procuro na reminiscência da minha meninice, qual a marca que identifique esta minha solidão.

Parou de chover. Parou, mas eu ainda estou com muito frio. Puxo para mim a manta, tentando ganhar coragem para ir para a cama. Dois travesseiros, uma só cabeça, para neles deitar. Estender um braço e encontrar o vazio. Não sei se era isto que eu queria escrever hoje, mas foi isto que escrevi.

14 comentários:

TMara disse...

por vezes é bom encarar a folha branca,ou o écran, sem ideias estruturadas e deixar k as palavras encontrem o cudale, fluam soltas. belo texto, amigo.
bjs de luz e paz e boa 4ª f.

Marketeer disse...

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Adryka disse...

Alexandre meu querido amigo, és o meu romancista favorito, adoro as tuas crónicas, és fantástico enquanti te leio transportome para as tua escrita e dou largas ao meu pensamento. Um beijinho meu amigo e parabéns pelas lindas cronicas que escreves

Adryka disse...

Meu escritor ronancista favorito, onda pára a continuação;) beijokas amigo e Bom fim de semana

TMara disse...

amigo, aredites ou não tenho tidos saudades tuas, de poor aqui vir, mas quase não surfo na net.
Ando ausente, perco-me no tempo ou ele foge-me...
K importa o como? o resultado é o mm. Falata-me, falha-me....Ou sou eu k lhe falho. está tudo bem contigo, agora. Estimo e desejo k assim seja. Qnt a essa de "secretário" agradeço a gentileza, mas poderíamos alternar , única forma de haver alguma justiça e, ainda assim sairias a perder.
bjocas de luz e paz e uma óptima semana

Aragana disse...

Olá alexandre,

Long time, no see...
Espero que esteja tudo bem contigo.

Beijinhos

Su disse...

gostei de ler.te....a vida...
jocas maradas

Maria disse...

Devo confessar que tenho passado algumas vezes por este blog, mas nada de comentários.
Os textos são magníficos, mas do que realmente gostei foi da música de fundo.
Este computador não tem colunas, e por isso, só ontem é que ouvi a musica de fundo e na altura não estava para comentários.
Adoro, e traz-me muito boas recordações, a ponto de ter de a desligar pois não conseguia concentrar-me no que estava a ler.
Enfim, muito interessante.
Mi

Cris disse...

um beijo

Adryka disse...

Ora meu querido Alexandre que feliz eu estou por ti, quero saber quando posso comprar o teu livro, só tenho pena n/ ter uma dedicatória tua, mas fica a dedicatória mental que sempre foste um amigão, tenho sentido a tua falta, mas agora percebi porquê.Um grande abraço meu querido amigo Alex

Verecundiam disse...

Bem... Acompanho o seu blog já há algum tempo, comecei no outro endereço.
A escrita do senhor tem cativado a minha atenção desde o primeiro momento.
Tenho lido tudo, pensei em comentar, mas ainda não tinha ganho a "coragem", é da idade.
Mas aqui estou eu a escrever. Criei um blog, vazio, só para poder comentar o seu.
Quanto ao livro, tenho procurado saber se já saiu para o público, mas não me chega a informação. Iria adorar ler.
Sei que por vezes não é possivel, falta tempo, mesmo inspiração, mas a sua escrita alegra o tempo que passo junto ao computador.
Obrigado...Continue

Verecundiam F.S

Afrodite disse...

embrulhado em carinho e admiração,
§(~_~)§ beijo da Afrodite
(uma carinha d'anjo - não desfazendo - num corpo espectacular, com tudo no sítio, muito dentro do prazo, sem aditivos nem silicones)

Titas disse...

"por que insistes em levar a minha alma para a tua cama?"

este teu jeito de escrever ....
não é jeito, é génio!

malu disse...

almas errantes atraiem almas errantes... contradizendo a lei dos opostos...

gostei deste blog... obviamente vou voltar...

beijos