sexta-feira, abril 22, 2005

Para além do infinito

Desmemorias

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Tiago, meu nome, vinte e três anos de vida, seis de inexistência, parido entre gritos, gemidos, sangue e lágrimas. Do fumo para o pó e deste para a agulha foi um tempo num espaço que dura um peido. Não sei quem sou e muito menos o que sou. Perdi a consciência numa inconsciência sem premeditação. Recuso, aqui e agora, não faço promessas. Coração congelado sem uma razão para a frustração do filósofo, em silêncio provocando surdez, junto da lareira, aquela que aquece as lágrimas que permite cair em seu olhar. Filosofias obrigatoriamente congeladas no papel que escreve meus pensamentos. Aqueles que a mente descoordena. A falta de palavras concretas, filosofias que não explicam o sentido das lágrimas que cai em meu olhar, a dor de um amor que arrasou quimeras tantas. Paredes que foram destruídas pelos gritos de dor de uma ruína que penetrou em meu olhar, que se cala perante as faíscas que silenciam dores e desejos.

A sua crepitação perante o vento que distingue a ferida feita por uma pedra apanhada durante o caminhar para um destino jamais traçado e muito menos escolhido em que caminhou, insistente, teimoso e cortou o lado direito do seu semblante, com a ponta do diamante que não encontrou a busca das pontas das estrelas que caíram por entre os dedos. Sangue que congelou e paralisou entre o olhar que se move em um sentido oposto das palavras guardadas no sentimento do perdido num tempo esquecido. Uma razão que parte em demanda pelas frestas de madeira queimada, um pensamento que não compreende em sua mente na vontade de caminhar pela razão e esquecer suas palavras guardadas naquele armário esquecido num canto.

Um destino escrito numa rocha encontrada, gravado a cinzel de fogo. Embutida pela madeira que atravessou o triunfo do sentimento e derrubou o sangue dos sonhos que constituiu em seus pensamentos. Centelhas que transformaram em bolhas de gotas de pranto que derramou, palavras que a carregaram pelas rachaduras que restaram, termos que definiram o sentimento que predominou nas noites que encontraram um pensamento dentro do ser que restou. O fechar dos olhos e as lembranças das palavras soletradas. As lágrimas, de novo, derramadas no contorce do semblante gelado. Palavras desejadas com vontade de regressar ao milésimo que terminou e soletrar a quem amou. Uma dor que consome o anoitecer. Um sentimento que contradiz o ser existido dentro do coração arruinado, fraco, cansado. O fim do prazo estabelecido para o final da dor instalada dentro do ser estranhável aos espinhos que o procuram para ferir a alma que se cala. Palavras que não são soletradas. A compreensão que não é compreendida nem justifica uma razão sem a lógica de um pensamento. O abrir dos olhos e os ponteiros gélidos dos segundos que não se passaram, estacaram, pararam no tempo para o predominar na dor existente.

Uma causa sem uma justiça um julgamento sem uma estrela, um sentimento sem uma dor, um pensamento que não foi dito em seus desejos, um sonho que se fundiu com a rosa que, de tanto amar, se esqueceu dos espinhos que a protegeu. Partiu amando as pétalas em que escreveu as iniciais do sonho que desejou finalizar na companhia das leves folhas que iriam calar os pensamentos contraditórios do seu ser e que não corresponderia ao seu sentimento. A perda de um controle e o lançar do corpo ao chão com o semblante que se feriu. Feridas que não foram cicatrizadas com o tempo, por falta de tempo, porque se perdeu, esqueceu ou não existiu. Cicatriz que não se fechou, gotas que derramaram por entre as palmas, guardadas que foram as linhas e que entoaram no ser que se fechou em seu cómodo. E no espaço esquiço em que criou uma miragem, desrespeitando o sentimento que existiu no coração que faleceu sem o dizer da pétala em que amou. Um submergir sem um fim, uma criação sem um inicio, um veredicto sem palavras, um sentimento que não responde à razão que o pergunta. A sua existência no predominar das rachaduras restantes, faíscas que incendeiam os cortes feitos. E continua o casamento entre o desejo e a ressaca. (Diário de páginas vomitadas)

4 comentários:

Mitsou disse...

Um texto muito forte, Alexandre. Carregado de emoções que me pareceram "mordidas com raiva". Fiquei a pensar nele. Um beijo grande.

Patrícia disse...

Obrigado pela tua visita e pelas tuas palavras. És sempre bem vindo. Gostei do teu blog, tens textos sinceros. Beijinhos!

menina disse...

bonitas palavras... dá que pensar... bom feriado. bjo

Cris disse...

desmemórias... ou antes memórias nítidas do q se pretenderia nem sequer lembrar?
Não conheço este mundo, mas julgo q conseguiste uma viagem extraordinária ao canto mais longínquo da alma dos q o conhecem. Admiro-te! Sinceramente, admiro-te pela capacidade de tão bem imaginar o naufrágio dos q navegam nas margens inversas da vida.
A eles, geralmente, apontam-se-lhes os dedos e acena-se-lhes o desprezo sem pensarmos o qt lhes podemos acentuar a culpa, o medo, a solidão... Talvez se o q sentem fossem mesmo desmemórias... eles fossem mais felizes...
Bem-hajam os q das desmemórias se salvam e têm a coragem de falar nelas... para memória futura!

Parabéns, Alexandre, n te conhecesse eu e acreditaria que mais q um ensaio, este seria um relato de memórias passadas!...

Parabéns, Escritor!

beijinho