domingo, novembro 13, 2005

Diário de um alma errante (III)

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Noite 14.630


Depois de uns quantos dias de ausência, os quais me recuso quantificar ou saber das razões, eis que regressas ao fim da tarde, o dia já fora e a noite apossara-se dos nossos sentidos. Noto cansaço no teu rosto e vejo um sorriso nos lábios. Chegaste até mim, apertaste-me nos teus braços, procuraste os meus lábios e prendeste a minha língua. Arrancaste a minha roupa e ali, no chão, fizemos amor. Sem uma palavra, sem uma explicação. Um sorriso nos lábios e um pedido de perdão no olhar.

Ainda ofegantes, acendemos um cigarro. Um ritual repetido, mas cada vez mais espaçado. Ficaste duas noites e depois partiste. Um até amanhã, um beijo e um tímido sorriso. E mais uns quantos dias sem saber de ti.

Não sei quanto tempo mais vou escrever neste diário, se alguma vez chegará ao fim ou simplesmente aguardo o rigor do Inverno, acendo a lareira, deixo crescer as chamas e atiro-o para o meio e fico sentada no chão a vê-lo arder, até que nada mais reste a não ser cinzas. Imagino o prazer que vou sentir ou a dor que vou sofrer.

Desconheço porque caminhos os teus passos deambulam, que outros braços te acolhem, que lençóis cobrem a tua nudez, mas uma coisa eu sei, não desejo receber toda essa violência deliberada, toda essa ausência premeditada. É urgente que atordoes os meus ouvidos com o grito definitivo para que eu, por fim, possa dançar sozinha, volteando por entre os móveis silenciosos, as notas tristes do meu eterno vinil que, teimosamente, insisto em conservar e que, de uma forma constante repete a mesma melodia de amor monológico, aquele amor monocromático. E negro, como aquele meu vestido de baile, aquele que vesti numa noite de luar e o usei na solidão da minha varanda porque, mais uma vez, não vieste. Foram outros os teus bailes dessa noite. Mas o negro profundo, esse ficou, o negro dos meus olhos.

Insisto em não desistir de mim mesma e os meus olhos de negro se transformaram em azuis e neles guardo todo o universo com os seus astros e estrelas que pode ser de uma luz fosca, até pode, possivelmente até anémica, mas uma certeza eu tenho, tu não podes ver o quanto eu posso ser iluminada a cada suave olhar esguio que me são oferecidos pelos sorrisos perdidos no ar. Tu me acusas de só oferecer sombras e disso me obrigas a acreditar, donde fujo e me refugio, agachada na muralha de carvão e cinzas, onde acendo o meu cigarro para que possas chegar até mim, um minúsculo ponto aceso e aguardo ouvir os teus passos. Em vão, eu sei, mas teimo.

Não pára nunca o vendaval feito furacão que rodopia nos meus ouvidos, até mesmo quando observo o sol, vermelho laranja, nascendo forte e brilhante no horizonte dos meus sentidos, através das vidraças da minha alma. Lá fora, por entre o casario, na busca de uma árvore, na poeira de uma estrada perdida no tempo, o mundo pode ser quente e aconchegante, pode até emoldurar o brilho dos meus olhos. Que não te vai ofuscar. O disco pode virar e a melodia se repetir ou o desafinado troar pelos ares. A palidez da minha pele ganhar os tons de uma rosa saudável, pétalas de uma verdadeira flor madura em primavera. Mas tu não vais estar presente.

Descobri algures, durante as minhas peregrinações pelos espaços que a tua ausência criou, um mar de cores misturadas numa paleta de um pintor enfeitiçado e onde eu posso me atirar, banhar o meu corpo, lavar o meu espírito um tanto cansado, aumentar o meu desejo de beijar os teus lábios, prendendo a tua boca como se estivesse mordendo uma fruta verde, vencer a tua resistência, ceder à tua insistência, sentir a pressão dos teus dentes e permitir que as nossas línguas sejam o alimento que mais aguça do que arremata a nossa fome.

Entrei na madrugada e o sono continua a vadiar algures por paragens distantes. Resta-me o silêncio desta casa, o vazio da tua ausência e as folhas deste caderno a serem manchadas com pontos e vírgulas.

Tu sabes, ambos o sabemos, que quero ficar contigo e não desejo que o nosso amor, se ele de facto existe, não continue a pairar no ar da incerteza. Tu sabes que eu sempre me resigno, acabo sempre por ceder aos teus encantos, louca imprudência! O meu corpo vai ondulando ao som de uma melodia e desejo que me acompanhes nesta dança cadenciada, num voltear por este espaço exíguo que é o meu quarto, num bailado quase pecaminoso. Pelo seu som de deleite, quase pairo no ar e deixo de sentir o chão num estranho júbilo e, no final, entrego-me toda a esta alegria que chega a perturbar a minha mente, este prazer de mentira que eu própria construí. E vou a correr tentar apanhar os flocos de neve de um frio que tento inventar e os espalho no deserto do Saara. Pequenas pedrinhas geladas que se desfazem quando tocam o calor imenso da areia. As palavras que se misturam em pensamentos incongruentes.

Sinto o saltitar leve das patas de um pássaro tocando, sem deixar marca, o meu coração duro, petrificado de dor e amargura. És culpado de uma culpa que jamais reconhecerás. Sei que, se um dia, por mero acaso, lesses estas páginas, não ias gostar e eu teria que ouvir as tuas zangas, as tuas frustrações e o teu esforço em renegar o sentimento de culpa. Se queres saber, pouco me importa, é assim que eu me sinto em mais uma madrugada. A ti, posso mentir, mas a mim, jamais o farei. Reconheço que, apesar de viveres de uma mentira, continuas a ser meu alimento e vicio e com firmeza me prendes com a mão, destróis a minha fortaleza em pedaços, roubas o meu escudo, trespassas os meus muros de enfado e humedeces o meu solo seco e perdido para qualquer semente. Mas eu continuo firme, resoluta e forte na minha debilidade.

Era meu desejo esquecer que toda esta solidão, nada mais é do que o preço a pagar por ser a outra. E essa sensação é mais forte, quando mergulho na banheira de água quente com leve espuma de sais perfumados. Quando acendo velas e fecho os olhos. Aí deixo que a quentura da água penetre na minha pele e as minhas mãos ganhem vida própria. Toco ao de leve os bicos dos seios, imaginando que são os teus lábios sôfregos e nesse instante sinto um ligeiro tremor no fundo da barriga e um calor que nada tem a ver com a temperatura da água. Resisto à tentação de baixar a mão, porque sei que isso só iria aumentar a minha solidão. Torna-la mais intensa, mais real. Mas o desejo é mais forte e deixo que tudo siga o seu curso. Uns gemidos perdidos no silêncio da casa, uns momentos de prazer solitário e uma vontade enorme de chorar.

Põe vezes recordo os meus tempos de criança, quando a mãe se convencia que o ballet deveria ser a arte que me envolveria no futuro e insistia nas aulas três vezes por semana. Não sei se acreditava mesmo ser o bailado uma carreira ou porque sentia prazer em dizer às vizinhas e amigas que a filha andava no ballet. Não durou a aventura, os meus pés eram de chumbo e o meu corpo desengonçado. Talvez por isso, hoje, apesar de me sentir um estado de graça não consigo executar esses passos de ballet delicados que a melodia interior me obriga a deslizar. É demasiada suavidade que contraria todo o meu jeito de sentir que neste momento me domina.

Tem momentos que não sei se falo contigo ou se me derramo na primeira pessoa nestas folhas de papel. Não que isso tenha importância, não procuro identificação e muito menos a solução de uma equação que não criei nem desenvolvi. Apenas sou e o simples ser é já para mim importante. Apesar de não passar de um desejo, aprecio a suavidade dos meus pensamentos, é como se fosse veludo roçando levemente a minha pele. Quero ser firme, rir ao perder a conta das estrelas do céu, gozar com tontices sem sentido, antes que seja obrigada a descer e tocar novamente no chão, sentir-me rija e presa ao que é meu, até mesmo ao que é da minha natureza mórbida. Aguardo o aviso de alguém de que estou a ultrapassar as fronteiras da mediocridade do meu viver. Algum anjo por aí perdido ainda esbarra comigo quando flutuo numa nuvem branca que, contrariando as ordens, por raiva, por despeito, ou sei lá porquê, tenta extirpar-me as asas alvas, mansas, ligeiramente desfeitas pelos tropeções e me tire esse pedaço de céu que eu bem sei que não me pertence. Demoro a descobrir que penetro em território perigoso, como perigosa é a minha alegria. A raiva surda cresce e eu sinto vontade de apagar o cigarro bem no meio do teu sorriso.

Ainda sinto no meu corpo o perfume dos sais de banho e isso me inebria em pouco. Sem muito saber porquê, sorrio enquanto olho as letras que tento desenhar com perfeição, sentindo cada movimento como se estivesse a fazer amor. E este é o momento em que recordo que às tu me vestes e cobres as minhas vergonhas. E eu só em ti posso aquecer-me, nessa tua pele quente mas com um coração tão frio. Tento ser dura, forte, mas no final acabo sempre a chorar. Confirmo que, no fim, sempre fico a perder. Porque raio hás-de ser tu mais esperto do que eu? Quando te sinto dentro de mim é como se toda a estrutura começasse a oscilar, a surgir rachas nos azulejos e o chão, esse, se abrindo em buracos sem fundo. É como me transformasses em solo erosivo. E depois vais para outras paragens, distribuindo sorrisos, falas, sentimentos. E eu fico aqui, até que a água da banheira esfrie e me faça tremer de frio,

6 comentários:

TMara disse...

k prazer me deu voltar a ler-te. magnífico texto.Boa semana. bjs de luz e paz :))

Mitsou disse...

Lido o texto e esboçado o sorriso de fiel admiradora, só me ocorre uma expressão para te classificar, Alexandre: Voyeur de sentidos. Especificamente, do sentir tão complexo da alma feminina. É preciso dizer mais alguma coisa?
É, sim. Obrigada por lhe dares voz.

Um beijinho doce, amigo!

Afrodite disse...

"voyeur de sentidos", diz a minha irmã do meio......

e franzi minha testa.....
mas, depois, veio a definição certa:
"sentir tão complexo da alma feminina"!

Perdida, percorri, errando este teu Diário e outros....
com o pasmo de quem te absorve,
mas também lixada, porque não encontro um texto teu que me marcou especialmente e que queria reler....

Afrodite disse...

encontrei... estava no Gregueria e voltei a comentar, desta vez, em jeito de análise:

"descobri que não quero nada da vida, apenas quero fazer parte dela, porque eu sou a vida.”

"Hoje o riso brota de mim como uma fonte de águas cristalinas, como as lavas de um vulcão em permanente actividade. É tão bom rir, Teresa!"

Numa primeira leitura, Clarisse mostra-se feliz, renascida como se Fénix fosse.

Mas sentir-se-á Clarisse liberta das suas mágoas? " Pobre pai! Nem isso, ele conseguiu fazer com coragem. Se o fizesse, talvez hoje eu fosse uma mulher feliz"

O "É pecado, não pecado!" persegue Clarisse.

E também a revolta, o desejo da vingança, tendo sua mãe como alvo:
"possuir uma felicidade construída por mim própria e não a encontrar num quarto de uma miserável pensão."

E o drama de Clarisse espelha-se aqui, nesta vingança de que é a única vítima.

Clarisse jamais poderá ser feliz.
Sua mãe, incapaz de a abortar por crença, foi executando o crime (por fé interdito) ao longo da sua infância e juventude.


Nota de rodapé: desde a primeira leitura identifiquei a mãe de Clarisse com Juliana, a criada de Luisa, para mim, a personagem mais marcante de "O Primo Basílio" de Eça de Queirós

Adryka disse...

Como sempre és surprendente, colocas aqui sempre textos fantásticos que nos ajudam a colorir a os nossos dias. Parabéns Alexandre és um amor. beijinhos

Betty Branco Martins disse...

Olá Alexandre

...que surpresa tive ao acordar quando me deparei com este teu magnifico texto...deu-me a luz k o dia nao tinha.

Beijinhos.