quinta-feira, outubro 13, 2005

Diário de uma alma errante

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Noite 14.601

Apesar de todo um passado de páginas escritas com raiva, num caderno de capas pretas e folhas com linhas, esquecendo muitas vezes de registar a data e o momento, traços de alma e sentidos que, quase sempre inconscientemente, desenham palavras em frases num desesperado esforço de se traduzirem. A despeito de tudo o que possui e que acaba sempre por deixar escapar por entre os dedos. De tudo o que tem vivido e do muito que desejou viver. Do balançar na ténue linha entre o certo que a sua consciência ordena e o errado que os outros declaram. Aquela vontade interior de afastar o seu próprio sofrer do sofrimento alheio, de criar um mundo que fosse só dela, impenetrável, longínquo. Era sua obrigação responsabilizar-se por todas as irresponsabilidades de loucuras cometidas e de muitas que a falta de tempo não deixou ainda cometer. Mas um dia ela as fará, disso tem a certeza. Talvez até num amanhã muito próximo. Se é sua a vontade de escrever todas as palavras com sangue, pois que assim seja, mas que seja apenas o dela.

As humilhações não se perseguem nem se conquistam, porque há sempre alguém a nos oferecer com um sorriso nos lábios. As frustrações, essas nos invadem, nos dominam e nos aniquilam. Depois vem o bálsamo numa garrafa. Enchemos o copo, bebemos, tossimos e fechamos os olhos e voltamos a encher o copo. Vezes e vezes até a garrafa ficar vazia e com ela o respeito próprio e com os outros. Uma questão de entorpecer os sentidos, vomitar nas noites de lua cheia, lavar as cuecas de renda compradas num momento de boas intenções e alguma esperança e correr pelos prados e inventar um deus. Num desespero sem causa roeu as unhas, esborratou a pintura dos olhos com traços negros disformes se espraiando pelo rosto e de nada adiantou o ter derramado lágrimas. No charco que encontrou no seu passeio errante, atirou pedras, nas flores que uma primavera tardia fez desabrochar cuspiu vergonhas, numa viela escura e deserta vomitou o jantar. Na sua imagem reflectida no espelho viu definido, de cores fora do arco-íris, o nojo de todos. Desejou parar de fumar enquanto acendia um novo cigarro com o outro, que esmagou no cinzeiro já cheio, Rezou uma oração não decorada para que lhe fosse concedida a dádiva de existir sem se magoar e afastar de si a vontade de machucar outro qualquer. Num piscar de olhos, um ligeiro estremecer do corpo, descobriu que tinha desistido. Mais uma vez.

Confessou a si própria não ser muita dada a congeminações filosóficas, por desgosto seu, pois não apreciava muito a sua faceta demasiado pragmática. Sensível, romântica, dizia-se de si própria. Justificava assim os tropeções da vida. Deu-se a interrogar-se sobre se as delícias do prazer compensavam as dores do sofrimento, tenha ele a forma que tiver. Quadrado, redondo ou simplesmente obtuso. Sentia que o prazer tinha um preço alto, talvez demasiado, razão pela qual muita gente não se podia dar ao luxo de o possuir. Depois o prazer de um pode ser a dor de um outro. E, naquele instante, enquanto olhava o velho casario através da janela daquele terceiro andar, congeminava, num esvoaçar de pensamentos muito para além da sua vontade, se o prazer não seria dor. Sofrer é mais fluido do que o sangue nas veias.

Quando rodopiava a caneta entre os dedos pensava se seria a força de vontade ou a arrogância dos outros que a empurravam para se desfazer de tanta prolixidade, daquele sentimento insano de se desfazer de si mesma. Possivelmente tarefa fácil e pouca diferença fazia. Sem se aperceber a caneta deslizava com algum frenesim pelas linhas das folhas do caderno de capas pretas, não fosse alguma palavra lhe escapar do pensamento e tudo perder o sentido.

Por momentos pensou desistir, rasgar as folhas, queimar o caderno, esquecer o diário, secar as lágrimas, apagar o pensamento, tomar banho, mudar o penso no seu último dia de menstruação, cada vez mais espaçado, menopausa precoce, dissera o médico, mas descobriu que privar-se de tudo é uma tarefa árdua. E ficou-se.

Penteava com os dedos o cabelo da boneca. Tinha quase tantos anos como ela e era a única coisa que guardara da sua infância. O facto de a ter guardado todos aqueles anos, fora mais por um simples acidente do acaso, do que uma afeição especial. Foram muitas as vezes que se interrogara porque continuava a guardar aquela boneca. Fechou os olhos e, num repente, arrancou a cabeça da boneca. Achou estranho associar na sua mente o gozo intenso de viver perigosamente e o arrancar a cabeça de uma boneca de infância. Incontroláveis, as lágrimas corriam-lhe pelas faces. E chorou, sem culpa e sem pecado.

Olhou a sala, decorou os móveis, leu os títulos dos livros um pouco desarrumados na estante em frente, admirou a reprodução de um quadro de Kandinsky, oferecido já não se recorda por quem e observou o reflexo da sua imagem no vidro da janela. Com gestos lentos despiu-se de todo e qualquer pudor. Nua, percorreu o seu corpo com as mãos. Há quanto tempo o não sentia? Esquecera por completo. Recentes, outras mãos o percorreram, um pouco frias, apressadas, distantes. Assim, nua de preconceitos, despida de sentimentos, saiu pelas ruas da cidade cujo nome se esforçara a atirar para o olvido. Partiu garrafas vazias e as mãos ficaram cobertas de sangue. Levantou em riste atacando um inimigo imaginário. Desferiu golpes para a esquerda e para a direita. Sentiu dentro de si o gozo, de novo, de viver perigosamente. Semeou misérias e pesares, colheu silêncios e raivas. Foi perseguida e gritou. Foi algemada e chorou. Foi enjaulada e cerrou os olhos. Os animais, os génios e os lúcidos sempre terminam presos em alguma masmorra. Uma prisão de grades interiores.

Porque se achou merecedora, ofereceu a si própria uma réstia de inocência e permitiu que se alastrasse pelo corpo, mas descobriu que era mais uma luz perigosa que mais assombra do que ilumina. Ao alcance dos seus braços, um amor numa outra paragem, uma promessa, um desejo, mas muito principalmente uma esperança. Mas um dia, por uns momentos de ilusão de um prazer procurado numa cama desconhecida, ficou perante uns farrapos de angústia e uma sujidade que, dias depois, ainda infestava seu corpo. E a esperança se esfumou nos ventos da perplexidade. Perdeu um amanhã, dissipou um amor que crescia e se afundou, pois até o amigo se perdeu numa noite de trovoada. Existir exige mais do que se por oferecer e a vida é um peso que verga os ombros. E o perigo vai crescendo e jamais poderá livrar-se de si mesma. Perde-se a vontade e ela sente o perigo de estar só, incapaz de construir caminhos para que a visitem na sua ilha particular. Uma ilha rodeada de angústias, temores e falsos prazeres.

Para além de todo o medo que ela sente de tudo e de todos, que não mais confia, por falta de coragem, por falta de vontade, por sua culpa. Pensa que talvez surja alguém com vontade de a salvar, não sabe do quê ou de quem, a não ser de si própria e isso ninguém vai conseguir. Deseja, em desespero, nunca finalizar um pensamento porque sabe que é exactamente aí que reside todo o perigo.

E agora que a noite me acolhe, tento descobrir porque escrevo na terceira pessoa como se fosse uma desconhecida de mim mesma.

7 comentários:

petrus disse...

Dura imagem de um ser que atravessa a vida passada a passada com o temor de não conseguir terminar ao mesmo ritmo de um relógio genético que supostamente deveria ser mais potente que ela própria...
Um dia olhou para uma arma e percebeu porque era simples usá-la. É impossível voltar atrás. Não há roleta russa para além das balas possíveis e uma vai acertar.
Acabaram-se os jogos.
A única recusa ante a loucura é talvez o rasgar do caderno, das folhas, das palavras. Não o rasgará ainda que amordaçada por uma sociedade que a desfaz em sangue. Porque no dia em que esse caderno de capa preta se diluir na sua mente, a realidade ter-se-á arrastado com ele para o buraco negro dos errantes... dos loucos.
E a terceira pessoa em que escreve, cessará de ser, de pensar de se mutilar e por fim de existir.

Mitsou disse...

Há em certas "loucuras" uma lucidez tão apurada que tudo passa a ser questionável. Complexo mas muito bem escrito, como sempre, Alexandre. Beijo grande e bom fim de semana.

A.na disse...

Alexandre,
obg por me ter descrito,
sou terceira pessoa...
singular!
Um afectuoso
abraço

Cris disse...

Não, n te li na diagonal... já nunca o faço...

Atrevessei todo este texto em passos lentos... parei... reli... e de todas as vezes encontrei uma força estranha que apelidei de "dor"... muita!

Na terceira pessoa?... pq é mais fácil!...

Diria muito mais, mas...

fica o beijo!

Anónimo disse...

Com a nudez da foto fiquei arrepiadinha de frio que nem consegui ler o texto todo, volto mais tarde. Bjks da Intemporal.blogs.sapo.pt

lazuli disse...

Um texto sobre o desencanto mas demasiado bem escrito para desencantar. E as palavras encontram em ti o lugar próprio, inigualável, e são como abelhas procurando a colmeia..e nela construindo os favos de mel com que ilustras este belo blog. Um beijo. Fernanda G.

TMara disse...

já tinha lido o texto, mas de fugida. A vida tem andado conturbada demais e o tempo (tanto o exterior como o interior) têm sido escassos.Hoje parei. Decici parar. estou lendo calmamente (apesar do turbilhão interior). Um texto de desencanto, mas k se transforma em próximo recomeço, pela lucidez. A 3ªpesoa trona + fácil o olhar distanciado e´+ lúcido. bom f.s bJS E ;)