quinta-feira, outubro 06, 2005

O Homem Invisivel

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Passara uma semana desde que Diogo festejara o seu aniversário na solidão do seu apartamento. Durante alguns instantes, fugazes no tempo, sentira uma espécie de branco, um vazio de memória, sobre quantos anos fazia. Fez algumas contas e chegou ao 43. Naquele dia celebrava 43 anos de idade. Mais um aniversário que não festejava. Quantos foram já? Era mais fácil fazer as contas ao contrário, tão poucos eles foram, em toda a sua vida. Na verdade não tinha qualquer importância para si. Um dia como outro qualquer, um traço na folha de calendário. Depois, não tinha ninguém com quem partilhar.

Lembrava-se que, em todos aqueles anos, apenas festejara duas, não, na verdade foram três. Dias quando criança, ambas oferta de uns padrinhos com algumas posses. A primeira quando entrara para a escola. Um pequeno bolo, mais farinha do que açúcar, e uma vela. A segunda quando terminou a primária. Um bolo comprado na ocasião e a vela foi esquecida. Depois disso os padrinhos foram viver para um outro lugar e esqueceram o afilhado.

A terceira, já adulto, decorrera no seu primeiro ano de empresa. Uma tradição instituída desde o inicio da empresa. Cada secção tinha uma lista do pessoal com as datas de aniversário. Depois da hora do expediente reuniam-se todos, abriam uma garrafa de espumante, que a chefia tinha comprado por atacado numa feira de vinhos e partiam um bolo que a secretária se encarregara de comprar, com a participação de todos. No ano seguinte, por uma qualquer razão, o dia do seu aniversário foi esquecido, ganhou hábito e assim se manteve em todos os anos.

Com mais cinco irmãos. Sem grandes possibilidades para festas, era fácil, conveniente até, os pais esquecerem-se dos aniversários dos filhos. Como o deles próprios, que nisso não faziam distinção. Os tempos não eram de festanças. Trabalhar para o pão, pagar o aluguer e tudo o resto eram luxos. Porque por muito que a gente pense, na merda desta terra há mais gente pobre do que rica.

Não entendia porque é que, naquela noite, as imagens da sua infância corriam frente aos seus olhos. Não se recordava de alguma vez isso ter acontecido. Há já muito tempo que se deixara de nostalgias. Vivia o seu dia a dia, sem nunca pensar no ontem e nem desejar o amanhã.

Pedira pelo telefone um jantar chinês. Normalmente confeccionava as suas refeições e apreciava aqueles momentos que passava na cozinha. Naquela noite resolvera oferecer a si próprio um pequeno luxo. Não apreciava comer em restaurantes. Preferia a quietude do seu apartamento ao bulício de uma sala cheia de gente falando alto, para mostrar aos outros que estavam ali. Abrira uma garrafa de vinho que há meses, num momento de loucura, comprara numa feira de vinhos, e logo ele que não era apreciador de vinhos. Guardara aquela garrafa para um momento especial, que nunca chegara. A intenção era partilhar com alguém. Sempre achou que não era bom beber sozinho. Naquela noite considerou que os seus 43 anos, era o pretexto certo para abrir a garrafa.

Dois meses antes, ele e mais sete colegas foram chamados à administração e, numa cerimónia simples e demasiado sem sentido, porque nenhum dos presentes sentia qualquer autenticidade da cena. Todos estavam presentes porque eram obrigados e tinham de sorrir para disfarçar o grande frete que tudo aquilo era. Os setes funcionários foram felicitados pelos 15 anos de empresa e oferecido a cada um, para marcar a efeméride, uma carteira em pele, com as iniciais do nome em ouro. Cada director proferiu algumas palavras de elogia e simpatia. Circunstanciais, vazias e decoradas, por tantas vezes repetidas, Apenas os nomes mudavam. Quando chegou a sua vez, o seu chefe gaguejou e não soube o que dizer. Não o conhecia o suficiente, apesar de todos aqueles anos. Acabara por atirar com uns quantos lugares comuns, que em nada o comprometiam, mas também nada diziam. Uma intervenção de palavras vazias que tanto podia servir para ele, como para a mulher da limpeza. Diogo tinha perfeita consciência que era um funcionário eficiente, um profissional responsável, mas invisível. Há muito que deixara de lutar contra essa invisibilidade, se é que alguma vez o tentara de verdade. Executava o seu trabalho em silêncio na solidão da sua secretária. Sempre que o serviço exigia ficava depois da hora. Não tinha ninguém à espera, nenhum compromisso e essa disponibilidade era muitas vezes aproveitada pelos colegas. Não se queixava. Quando saia dentro do horário, arrumava cuidadosamente os papéis, limpava com a mão um inexistente resquício de pó da secretária, atirava um tímido até amanhã, a que ninguém se dava ao cuidado de responder, e abandonava o edifício de dez andares, pelo elevador de serviço.

Deambulava sem direcção pelas ruas da baixa, parava numa ou noutra montra, sem prestar grande atenção e seguia para casa. Assim eram todos os seus dias. Até que um dia tudo mudou. Exactamente dois meses antes do seu aniversário. Para ser mais preciso no dia seguinte em que recebera a carteira.

Na companhia do chefe, a Laura fora apresentada a todos os funcionários da secção, como uma nova colega. Chegara junto do Diogo. Este levantou-se num gesto de cortesia, estendeu a mão e ergueu os olhos. Foi como se tivesse recebido uma descarga eléctrica. Nunca, até então, tivera aquela sensação.

De mulheres conhecia pouco. Umas breves ligações, sem história nem consequências, na adolescência, originadas por um ou outro trabalho de grupo que os afazeres escolares exigiam e a falta de tempo de trabalhador estudante obrigava. Dividia o seu tempo entre o trabalho e os estudos à noite. Na faculdade, tinha acontecido um breve caso com uma colega de curso e que lhe despertara algum sentimento, mas mais uma vez a sua invisibilidade fora mais forte e ela nem se dera conta da sua existência. De tempos a tempos, quando as suas necessidades eram mais exigentes, comprava uma hora de prazer, não havia conversas nem sentimentos e durante largos meses não pensava mais no assunto. Momentos havia que recorria a um satisfazer solitário.

Passara todo o dia sem conseguir se concentrar no trabalho o que nele nunca tinha acontecido. A sua vontade era levantar a cabeça e olhar para a nova colega. Divorciada, 38 anos, mãe de uma filha de 4 anos. Aquele primeiro dia fora um sofrimento. Parecia que as horas não passavam, que os ponteiros do relógio, colocado na parede em frente, se mantinham inertes. Queria sair, tinha urgência em respirar.

Todos os dias, Diogo bebia cada movimento da Laura, pulsava a cada olhar que se cruzava. Aprendeu a admirar as suas formas definidas, os seus traços, as suas curvas, o seu jeito leve de andar. Cada tecla que tocava, cada número que surgia no ecran, cada fórmula que construía, cada equação que resolvia, tudo se conjugava na construção de um sonho. Isso era Laura, um sonho. Ele bem o sabia. Jamais poderia tocá-la, jamais poderia senti-la nos seus braços, possui-la como mulher e amante, um amor que ultrapassava as fronteiras do sublime.

O tempo ía passando e Diogo aprendeu uma nova lição, a se conformar. Saciava seus desejos numa visão pura e simples, o seu perfume, a melodia da sua voz. E Diogo de solitário passou a triste. Os seus temores gritavam-lhe que nunca iria ter a coragem de falar do que sentia, nem a ela nem a ninguém. Observava os risos, as conversas soltas, e deliciava-se quando a ouvia rir.

Trocaram algumas palavras. Laura sempre o recebia com um sorriso e uma palavra simpática. Gostava dele e lamentava a sua timidez. Uma ocasião pensou em o convidar para um bebida no fim do trabalho; afinal era uma mulher livre, mas Diogo era um homem fugidio e ela ainda não se decidira. Tinha algum receio de receber uma recusa e sentir-se desconfortável por isso.

No dia seguinte ao ter festejado o seu aniversário na solidão do seu apartamento, Diogo, sentado à sua secretária, viu a Laura entrar na sala onde se encontrava a máquina de fotocópias. Passara junto de si, sorriu-lhe e deixou no ar o seu perfume. Ele fechou os olhos, inebriado. Durante alguns instantes não conseguiu respirar. Um pensamento, um desejo, um impulso, ou então algo que de repente resolvei desabrochar. Olhou em volta. Todos estavam absortos no trabalho. Mas mesmo que não estivessem ele sabia que, fizesse ele o que fizesse, seria simplesmente ignorado. A sua invisibilidade era permanente e disso ele tinha perfeita consciência. Sentiu os pulmões inundados de um a forma agressiva, pelo perfume de Laura. O seu corpo estremeceu, as suas mãos suavam, o coração batia descompassadamente. Os movimentos deixaram de ser comandados pelo cérebro e dentro de si nas céu uma vontade incontrolável de sair dali a correr, antes que morra ou se mate de amor. Possuído por um desejo infinitamente maior que ele, Diogo levantou-se e, com passos firmes e determinados, dirigiu-se à pequena sala. O cérebro gritava para que parasse e regressasse à solidão da sua secretária. Recusou ouvir. Entrou e ficou olhando-a, como se de repente, não soubesse como tinha ido ali parar. Laura levantou os olhos e sorriu. Ela era a única que sempre sorria para ele. Diogo deu um passo em frente, estendeu os braços e, se alguma resistência houvera, ficou subjugada na ternura daquele abraço e afogada na profundidade naquele beijo. Beijou-a como nunca tinha beijado na sua vida. Nem sequer em sonhos. Tanto desespero naquele acto. Laura não se moveu. Não resistiu. Foi como se também esperasse aquele momento. Como se o desejasse. Como se tivesse a certeza que ía acontecer. Inconsciente fechou os olhos e deixou-se vogar na onda enorme daquela ternura. Não soube se correspondeu ao beijo se não, mas isso, naquele instante, pouco importava. Uma coisa ela sentiu, havia desespero e amor naquele beijo e por momentos viveu dentro de si uma intensa felicidade. Inexplicável mas verdadeira.

Num impulso, ele se afastou, pediu perdão com as lágrimas correndo pelas faces e saíu correndo. Parou junto à secretária. Olhou em volta. Ninguém se apercebia da sua presença. Continuava a ser um homem invisível. Curvou-se um pouco sobre a secretária e, mais cuidadosamente do que o habitual, arrumou em pequenos montes, todos os papeis. Encostou a cadeira de rodas junto à secretária. Voltou a olhar em redor. Depois, num passo firme e decidido, encaminhou-se para a porta de vidro que dava acesso a uma pequena varanda sobranceira ao pátio principal. A sua secção situava-se no oitavo andar. Sem olhar para atrás lançou-se no vazio. Soltou um grito de desespero e depois um baque seco. Todos levantaram os olhos. Levou alguns instantes até que alguém conseguisse perceber o que se tinha passado. Apontaram para a porta aberta. Diogo jazia morto no chão do pátio principal, a poucos metros dos carros estacionados.

Laura, enquanto isso, continuava a tirar fotocópias. Na sua mente um turbilhão de pensamentos. Estranhamente admirava a coragem, o impulso e o frémito daquele beijo. Todas aquelas sensações despertadas. Será que estava a enlouquecer? Ou estaria sendo feliz pela primeira vez? Cedeu à vontade louca de correr atrás dele, pedir desculpas pelo medo que sentira. Ele precisava de saber que não lhe era indiferente. Tantas vezes tivera vontade de lhe falar, meter conversa, fazer convite, mas ele era uma pessoa tão fechada, tão arredia.

Regressou à sala e viu o alvoroço. Num relance sentiu mais do que descobriu o que se passara.

Sem falar com ninguém abandonou o edifício e fechou-se em casa. Deitou-se na cama e ali ficou dias esquecidos. Estava certa que Diogo a qualquer instante entraria pela porta do seu quarto e lhe roubaria, com um beijo, a sua própria vida. E a partir desse momento deixaria de ser um homem invisível.

11 comentários:

Raquel V. disse...

Primeiro achei absurdo, depois recordei-me, há tanta gente assim.
Vindo de ti... tinha que terminar assim... Chorei.


As festas de aniversário em empresas, algumas já foram reais... e depois foram morrendo.

A solidão de alguns seres humanos é atroz... e nós não nos damos conta.

E tu... acabas sempre a descrever realidades. Será que te dás conta?

Um beijo

Jamour disse...

Sempre que cá venho aprendo a escrever!!! ;)

Fallen_Angel disse...

gosto bue de te ler, tu escreves de uma maneira q "prendes" as pessoas :O)

bom domingo
beijinho

susana disse...

uma esrita interessante sem duvida...... gostei de ler......os meus parabéns

fernanda dias disse...

Lindo mas triste....Bj e boa semana!

Adryka disse...

Mais um post fantástico, como sempre adorei. Beijinhos

Malae disse...

Ler-te é ler um tratdo de bom português!Mas mais do que isso é ler uma página arrancada de um livro brilhante... Adorei! Não me canso de te ler... Beijinhos grandes. Malae**********

lobices disse...

...agradeço a visita que retribuo com gosto
abraço

IsaMar disse...

tal como o lobices, agradeço a sua visita ao meu mundo. Num relançe espreitei pelo seu, e uma pergunta deixo: são contos que escreve, ou histórias por si vividas?

TMara disse...

lendo os teus contos concluo que a proximidade dos universos feminino e masculino é mtº maior do k pensamos. Consegues uma coisa mágica. Retratar vidas tristes, esvaziadas (mas excessivamente cheias nas almas dos protagonistas)com um fino recorte. esta e a de cima. Bom f.s Bjs e ;) e um grande obrigada por aqui divulgares os meus livros.

Mitsou disse...

Arranjei um bocadinho e vim sentar-me aqui a ler-te. E tenho muito que ler. Este conto, tão "alexandrino", retrata uma realidade que nos passa ao lado, invisível como o protagonista. Só a morte lhes dá visibilidade. Triste mas verdadeiro.
Beijo grande.