Sinto, mais do que sei

Sinto, mais do que sei, que as formas do meu rosto já não são do teu agrado, o mesmo que adoravas, dizias, acariciar, por onde a tua língua percorria docemente com uma lentidão arrepiante. Tudo porque nele, agora, está o desenho irregular de uma cicatriz no local que adoravas morder enquanto eu, com movimentos muito lentos, como tu gostavas, devagar, muito devagar, dizias num sussurro, eu entrava e permanecia dentro de ti, ao mesmo tempo que eu sentia a doce dor dos teus dentes e o meu sexo em movimentos na procura de dar e receber prazer. Tu fechavas os olhos e te oferecias, desejosa, ansiosa.
Sinto, mais do que sei, que os meus ombros, os mesmos onde gostavas deitar a cabeça, dolente e cheia de abandono, deixaram de ser o local do teu fascínio. Perderam o espaço de um passado recheado de saudades de todas as coisas que preencheram as nossas vidas. Aquelas pequenas, insignificantes mas que nos faziam sorrir, nos excitavam e nos fazia cair em qualquer lugar fazendo amor desenfreado e louco. Os meus olhos perderam brilho e força, aquela força voraz quando percorria o teu corpo e beijava o teu sorriso, talvez porque a cobiça tenho desfocado a retina. Culpa minha ou simplesmente a procura de um inexistente mais além.
Se o meu comportamento no passado era mais agradável na tua forma de encarar uma realidade que nos ultrapassa, nesse caso, sinto, mais do que sei, que já não nos pertencemos mais. Culpa tua porque permitiste que a distância nos separasse. Dizes que as saudades que sentes do tempo em que usava o cabelo comprido, rebelde, que mais significava o desejo de uma imagem da alma de artista, que nunca fui nem nunca serei. Olhas com desagrado a minha nuca agora a descoberto. Posso parecer duro, quem sabe com laivos de paranóia, só que, assim, fico com a sensação, que não vais aproximar-te demasiado de mim para me apunhalar pelas costas. Ou talvez não, exista apenas o desejo de apagar em definitivo a imagem que deixou de pertencer à moldura que decorava o colo dos teus desejos.
Sinto, mais do que sei, que te incomoda falar do passado. Tudo bem, brinquemos então com ele e se a palavra passado te afecta assim tanto, procuremos então um sinónimo que tenha o mesmo sabor, mas com uma imagem diferente. Afinal, é mais uma forma de nos enganarmos a nós próprios, como tantas vezes já o fizemos. Uma vez mais, que importância tem? Preferes o pretérito, imperfeito, talvez. Arcaico é possível que seja demasiado literário e que pouco ou nada signifique. Envelhecido. Porque não? Riscamos a palavra passado e usamos o envelhecido.
Ao escrever estas linhas, à minha frente um copo de sumo que por largos instantes esqueci de beber. Descobri que o grosso da fruta ficou concentrado em cima, mas sem se isolar. Bastou mexer e tudo se misturou de novo. Parvoíce minha, esquece a metáfora. Fuma lá esse teu último cigarro de haxixe, desta vez não partilhado e podes ir. Fecha a porta. Não gostaria que o frio gélido do Inverno entrasse.


Muito honestamente adorei este teu texto, está sublime pela forma como encaras o tempo nas enrugadas palavras sentidas... "SEI MAIS DO QUE SINTO", troco por conveniência... Afim de saborear o tempo que agora tenho pela frente, sem medo de olhar para trás.
Abraços
Bom, fim-de-semana
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