
Fui sentindo aquela frescura de noite barata, o jantar apressado naquela esquina perdida, depois o caminhar por uma viela deserta murmurando um credo rezado a dois. Inveja matou minha dureza, tombou o difuso na calçada da rua palmilhada por uns ténis que o tempo manchou, enquanto que as baratas, fugidias, se pavoneavam por entre as frestas. Protegias meus dedos entre os teus, num acariciar leve, inconsciente na consciência de um vibrar. Em nossos olhos o ignorar do leite derramado, apenas o sorriso permanecia, um deixa para lá, de não valer a pena. E tanto quanto possível, sorvias as pequenas gotas. Um charco de dias não passados gotejava debaixo do asfalto, mas nós não sabíamos. O medo é meu substantivo recorrente, de presença tão certa como o dia seguido da noite. Inveja antiga ainda me agita, refresca a memória, o leite dela respinga e uma gota atinge meus olhos. Ainda lhe sinto o sabor.
Tenho linhas nas mãos, cruzadas, paralelas e elas se desenham como vermes, ou traços indeléveis, por todo o meu corpo. Sentidos feitos em cacos me forçam a tirar conclusões débeis, enquanto bebo em pequenos goles uma chávena de café muito forte e, nesse instante escondo na palma da mão numa desesperada tentativa de agarrar a quentura que faça abalar o frio e é naqueles momentos quando troco as letras do alfabeto. A pala que esconde meu olhar impede a perfeição da mira e, por mais ágil, tudo se esfuma. Sinto o suor percorrendo meu corpo, frio, húmido. Desejo que tudo termine, no ali e agora, rezo e faço votos, numa descrença de quem apenas encontra o vazio e tem o silêncio como resposta. Eu sei e sinto o quanto a esperança é patética. Densa. Corruptora. E eu me entrego ao consolo porque no fim de toda a coisa me descubro fraco, abraçado à fragilidade do não acreditar. Aperto teu braço, de leve, receio de machucar só que, quando meus dedos escorregam descubro um vergão vermelho e meus olhos ficam tristes.