sábado, março 19, 2005

Amarrar o Tempo

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Sei, sei que ando apressado, com toda aquela pressa de quem não sabe para onde vai. Mania minha. Mas, e se o tempo abalar? E se o céu partir o tempo, o vento fugir por entre as folhagens das árvores? Será que vão saber remendar? E corda? Vai ter corda para prender? E depois onde vamos encontrar gente para puxar? Será que vai ter gente?

Vou abalar da corrente salgada em discordância com o mar. Fazer de forte. Valente. Vou tentar ser maior que o mestre e, sem mesmo saber, vou tentar costurar os pedaços, feitos em cacos, que o tempo quebrar. E daí talvez aprenda valentia, cá de dentro, e não precise coser os farrapos, colar os cacos, talvez não haja louça, perca o passo, encontre o compasso. Talvez eu fique apenas com o tempo. Agarrado. Abraçado. Braços apertados ao tempo. Em silêncio.

Ainda não dormi. É que a gente não fica de bem e aí não conversa. Não fala e não transmite pensamentos e desejos. Aquelas vontades de partilhar. Ficamos naquela de dorme e no tenta dormir. E depois não dorme. Tu sabes. Aquela sonolência. Mas chega uma hora que dorme, esperança minha, embora contrariada. Se dormir vou perder, um tempo que se escapa nas brumas de uns olhos semicerrados.

Primeiro é um franzir de testa, a vontade de chorar que derrama do fundo mas não consegue e fica com aquela dor na garganta que quase não deixa respirar. Depois é aquela saudade que bate no peito, a raiva que cresce mas não encurta as distâncias. A falta do abraço quente de embalar, da cantiga sussurrada de um velho ventilador, da respiração no ouvido da gente. Aí ganha medo, do escuro, do vento nas vidraças, da ausência da respiração a seu lado. Levanta da cama, vai para a sala, acende a luz e espera pelo resgate. Ergue o queixo pois você não é disso. Volta para a cama, fecha os olhos e finge dormir. Deixa que a respiração pese. Teatro. Ressona. Pois que seja.

Para mim é impossível dormir e mesmo que eu tente, o que não faço, fazer as pazes não tem jeito e tu não me consolas do peso do dia da amanhã e perco o beijo, aquele que o tempo fez ruir, perdeu as amarras, e eu não esqueço. Penso nos compromissos, nos telefonemas, na agenda que a secretária teimosamente coloca à minha frente, nos nãos e sins que sou obrigado a enfrentar sem vontade. E aí sinto raiva. Raiva pela distância, pelo sentir, pelo desejo insatisfeito, pela vontade de ir. O resgate não chega e eu de luz acesa sentado no sofá olhando a parede e o quadro do qual decorei cada pincelada. Se for para a cama, vou ter de esperar em vão o momento de sentir no meu ombro a tua mão. Mas quando me abraçares de novo, aí, as cordas soltas darão o nó no tempo.

4 comentários:

Anónimo disse...

Venho agradecer a tua visita ao meu blog. Valeu a pena chegar aqui,tens dom e habilidade de criar com muita sensibilidade... voltarei mais vezes.abraços
suavealento

Menina_marota disse...

Uma sensibilidade partilhada, com uma força de expressão fabulosa.

Gostei

Abraço :-)

Adryka disse...

Como escreves lindo, mas percebi aí no post...uma casmurrice, será verdade ou ficção, a ser verdade pode partir de ti o colocar a mão e tudo se renova é só uma questão de jeitinho vá lá..
Beijo

Cris disse...

Este teu texto fez-me lembrar um "berço de emoções". Uma Arca de Pandora... Feridas q em contacto com o mundo, se tornariam chagas difíceis de curar...

Um texto escrito do avesso para o direito... um grito imenso q se confunde com conformismo consentido...

Um texto imenso... com a profundidade a q já nos habituaste!...

Beijo